Sobre a tragédia Édipo Rei de Sófocles (século V a.C.)

O Édipo Rei, de Sófocles, certamente é uma das mais importantes e influentes peças teatrais do gênero trágico que chegou até nós. Escrita no apogeu da antiga Grécia (século V a.C), ocupa um lugar especial entre as centenas de poemas trágicos do período. Influenciou não apenas outros poetas e obras imortais da literatura ocidental, mas ganhou destaque na psicanálise e na própria filosofia ocidental. Aristóteles se referiu ao Édipo, na sua Poética, como um modelo de poema trágico.

Qual é o tema dominante do Édipo Rei? A peça, hoje, é considerada dentro da trilogia que retrata o grupo dos labdácidas, isto é, Lábdaco e os seus descendentes, herdeiro de uma maldição divina. A versão mais difundida dessa maldição nos conta que erros do rei Laio, filho de Lábdaco, amaldiçoaram toda a sua geração, a começar por ele mesmo e pelo seu filho Édipo.

Após uma consulta ao oráculo de Delfos, Laio veio a ter conhecimento de que teria um filho que o mataria e que desposaria a própria mãe, Jocasta, a rainha de Tebas e sua esposa. Temendo que se cumprissem as predições de Apolo, Laio entrega a criança (Édipo) a um dos seus pastores para que a matasse nos campos. Compadecido da criança, o pastor não tem coragem de matá-la e a entrega a um companheiro de ofício, um pastor de rebanhos do reino vizinho de Corinto, cujo rei, Políbio, não tinha filhos. O pastor entrega a criança ao seu rei, que passa a criá-la como um verdadeiro filho e a quem daria a sucessão do trono de Corinto. Durante toda a formação de Édipo, Políbio não lhe revela o seu segredo, de modo que Édipo crê, até a sua fase adulta, ser seu filho e legítimo sucessor do trono.

Perturbado por sonhos terríveis, Édipo decide, já adulto, ir até o oráculo de Delfos para obter uma orientação da Pítia, sacerdotisa do oráculo de Apolo, que lhe confirma as predições que, anos antes, foram feitas a Laio. Temendo vir a matar aquele que julgava seu pai e desposar aquela que julgava ser sua mãe (o rei e a rainha de Corinto), Édipo deixa a cidade e segue o rumo de Tebas. Nas proximidades da cidade, numa encruzilhada de três caminhos, Édipo encontra uma caravana que conduzia Laio, que lhe dispensa um tratamento hostil e se precipita para matá-lo. Em um ato de reação aos soldados de Laio, Édipo consegue vencê-los e os mata e, em seguida, mata o próprio rei. Laio era seu pai, embora Édipo não estivesse em condições de suspeitar disso, tampouco o que lhe esperava quando penetrasse os muros de Tebas, algo entre um destino glorioso e nefasto.

Tebas, na ocasião em que Édipo chega à cidade, era assolada por uma maldição cujo segredo era desconhecido de todos. A Esfinge propunha um enigma que desafiava os tebanos: qual é o ser que caminha sobre quatro pés, com dois pés e, depois, com três “pés”? Édipo, já na cidade e diante da esfinge, “decifra” facilmente o enigma: tal ser é o homem, que engatinha na infância, é bípede na maturidade e, na velhice, anda com apoio de uma bengala (um terceiro “pé”). A Esfinge devorava quem não decifrasse o enigma, mas aquele que lograsse esse êxito casar-se-ia com Jocasta e tornar-se-ia o soberado rei da cidade. Eis o princípio da glória e da desdita de Édipo.

Já rei da cidade, anos depois, esposo de Jocasta, pai de Ismene, Antígona, Polinices e Etéocles, Édipo se depara com “outra” maldição lançada sobre Tebas, que “volta” a ser alvo da ira de Apolo. Sem saber de si mesmo o que fazer, Édipo envia o cunhado, Creonte (irmão de Jocasta), a Delfos, cujo oráculo lhe responde que há uma nódoa que precisa ser extirpada da cidade. De volta a Tebas, Creonte comunica as palavras do Oráculo a Édipo, que, prontamente, inicia uma investigação para saber de que nódoa se trata. Se homem ou mulher, decreta que ninguém lhe dirigirá mais a palavra, será cobrido pelo opróbrio e execração pública e, por fim, deverá ser banido da cidade de Tebas. A investigação, passo a passo, sob a condução do próprio Édipo e com o auxílio de Tirésias, cego e adivinho, aproxima Édipo do conhecimento do seu destino. Ele descobre que ele mesmo é a nódoa que contamina Tebas. Ele, sem saber, matou o pai e casou-se com a própria mãe. O grande e sagrado Édipo não vê outra solução que não seja cumprir o seu próprio decreto. Fura os próprios olhos e deixa a cidade rumo aos campos de Colono, onde permanece até a morte. Esse será o tema de Édipo em Colono, a última peça da chamada “Trilogia Tebana”. Quanto a Jocasta, comete suicídio antes mesmo do desfecho do caso, que a partir de um certo momento já lhe era claro a ponto de tentar demover o marido e filho de prosseguir com a investigação. Édipo, evidentemente, não segue os conselhos da sua esposa e mãe.

A questão da esfinge não é de simples compreensão, além de constituir uma das mais profundas reflexões da literatura universal sobre a natureza humana. Édipo é um grande homem, abandona aqueles que pensa serem os seus pais, o reino a ele destinado (Corinto) para não cometer o crime predito por Apolo. Quis o destino que rumasse para Tebas, ou seja, supondo fugir do próprio destino, não faz além de ir ao seu encontro. O seu desejo de desvendar a verdade faz com que se depare com o seu próprio e nefasto destino. Mesmo nos momentos em que se aproxima de saber que a mancha que assolava Tebas era ele mesmo, não abandona a investigação, até o último momento, quando a palavra final de uma testemunha, que lhe daria a completa certeza acerca da sua origem e leva o depoente a dizer “Me será terrível dizê-lo”, Édipo responde: - “E para mim será terrível ouvi-lo, mas cumpre que o digas.”

Relembremos o enigma da Esfinge: - Qual é o ser que caminha sobre quatro pés, com dois pés e, depois, com três “pés”? O enigma, numa tradução mais próxima do grego, propõe: qual ser é, a um só tempo, dípous, trípous e tétrapous? Uma observação sobre os termos do enigma é decisiva: quando Laio ordenou Édipo fosse morto, ele o entregou ao seu pastor com os pés amarrados, o que causou em Édipo uma deformação nos pés que carregou ao longo de toda a vida. Ora, "oidein", cujo radical "Oi" está no nome de "Édipo (Oidípous) significa "inchaço", uma deformidade nos pés. Édipo não possui “pés” normais. Com efeito, "pous", em grego, significa "pé". Assim, "Édipo" significa "pés-inchados", "pés-deformados". A deformidade dos “pés” de Édipo traz uma questão muito mais profunda, como assinala Jean Pierre Vernant (ver Mito e Tragédia na Grécia Antiga): Édipo, que veio a ter quatro filhos com aquela que - sem saber - era a sua própria mãe, se iguala aos irmãos, é o homem maduro e forte que reina sobre a cidade e usurpa a condição do pai, o ancião. Portanto, ele é como os irmãos (tétrapous), esposo adulto da mãe (dípous) e igualado ao ancião, seu pai, o que o torna "trípous". O enigma "decifrado" tão facilmente por Édipo é, em geral, o homem, mas particularmente é ele próprio. É a humanidade incorporada na figura singular de um homem, sempre dividido entre a sua natureza mortal e o seu impulso pela busca da grandeza imortal. A ideia de uma deformidade nos “pés” nos traz a perspectiva de uma grandeza divina insuportável ou insustentável pela nossa dimensão irremediavelmente mortal. Édipo é, de certo modo, todo homem, e atinge essa dualidade entre a mortalidade e a imortalidade precisamente quando se engrandece como personagem virtuosa e nobre. Por outro lado, o “querer saber de si” lhe causa a mais insuportável das dores humanas, a própria visão da grandeza que sucumbe irremediavelmente à miséria que cerca a condição humana.

O que escapa a Édipo quando da sua chegada em Tebas é o segredo mais profundo do enigma: se o gênero humano caminha de três formas, de acordo com as fases da vida (engatinha, caminha sobre dois pés e, na velhice, com auxílio de uma bengala), isso ocorre em tempos diversos em que se é primeiramente criança, depois adulto e, por fim, ancião. Mas não é esse exatamente o caso de Édipo. Ele é, a um só tempo, dípous, trípous e tétrapous (tem, pois, os “pés deformados”). Ora, segundo a leitura de Vernant, só a divindade pode ultrapassar o estatuto do tempo. A divindade é “jovem, madura e anciã” - a um só tempo. Como humano que é, Édipo ultrapassa a condição humana e se faz divino, o que de modo algum é permitido à humanidade. De fato, Édipo, durante o seu reinado em Tebas, proporcionou aos tebanos uma era de paz e prosperidade. Era um homem reto, de caráter ilibado e amante da verdade. Numa palavra, um ser sagrado e divino, como ficará claro na última peça da trilogia.
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