Grupo de Laocoonte - estátua encontrada nos escombros de Roma no ano de 1506. A obra hoje se encontra no Museu do Vaticano.

Grupo de Laocoonte - estátua encontrada nos escombros de Roma no ano de 1506. A obra hoje se encontra no Museu do Vaticano.
Texto de Márcio Petrocelli Paixão
Laocoonte, segundo nos narra a Eneida, poema imortal do poeta Virgílio (Roma, 70-19a.C), foi um sacerdote de Apolo que despertou a ira dos deuses quando arremessou um dardo sobre o Cavalo de Troia, utilizado como estratagema pelos helenos para a entrada e a respectiva tomada da cidade, cujas muralhas eram invencíveis. Durante o cerco da cidade ao longo de dez anos, conforme a narrativa completa da Ilíada de Homero, a guerra jamais havia sido travada dentro dos muros da Tróia. Os gregos, apesar das batalhas sangrentas com os troianos ao redor das muralhas da cidade, jamais conseguiam penetrá-la por meio da força militar. A Ilíada de Homero termina sem a cena da tomada e respectiva queda de Tróia.
A estratégia de ocultar o exército grego dentro de um cavalo de madeira (o famoso “cavalo de Tróia”) foi de ninguém menos que Odisseu (Ulisses), o herói protegido por Palas Atena. Laocoonte foi o único a levantar a suspeita de que o “presente” era uma armadilha e, assim, tentou convencer os seus compatriotas de que o cavalo deveria ser queimado fora dos muros, independente do que ele pudesse guardar consigo. Algo nefasto, segundo a sua advertência, deveria acontecer caso o cavalo penetrasse os muros de Tróia. Inconformado por perceber que os seus irmãos não lhe davam ouvidos, Laocoonte arremessa uma lança sobre o cavalo, evidentemente que sem sucesso. A lança o atinge, mas não lhe causa danos.
O que se segue a esse episódio é algo terrível. Duas serpentes marinhas emergem subitamente do mar e se precipitam sobre os filhos de Laocoonte. Ao tentar salvá-los, o sacerdote é morto junto com eles. Virgílio nos dá a clara ideia de que as serpentes foram enviadas contra Laocoonte como uma maldição da divindade pela tentativa de impedir a estratégia dos gregos para penetrar os muros de Tróia. O que sempre causou polêmica foi a divindade responsável pela maldição, segundo interpretações diversas, pois Virgílio não deixa esse ponto muito claro na sua narrativa. Para alguns, o envio das serpentes foi uma maldição de Apolo, ao passo que outros divergem entre Atena e Poseidon. A narrativa de Virgílio, no entanto, se refere à fúria de uma deusa, provavelmente Atena, a grande protetora e “padroeira” dos gregos e do próprio Odisseu, mentor da estratégia de construir um cavalo gigante como um suposto presente dos gregos aos troianos. Que a maldição tenha partido de uma deusa, os versos do canto II da Eneida (versos 297 a 324) nos dão sinais contrários às teses de que Apolo ou Poseidon tenham sido responsáveis pelo acontecimento:
Duas voltas lhe deram pelo corpo,
duas voltas lhe deram no pescoço,
e os dorsos escamosos o ultrapassam,
elevando a cabeça e o alto colo.
Baba e negro veneno lhe escorrendo
pelas sagradas fitas, ele tenta
com as mãos soltar os nós ao mesmo tempo
que lancinantes gritos solta aos céus,
tal qual mugidos quando foge o touro
no altar ferido e sacudindo arranca
do pescoço a hesitante machadinha.
Esquivam-se as serpentes deslizando
na direção dos altos santuários;
o abrigo da cruel Tritônia buscam,
aos pés da deusa e junto ao seu escudo.
Um súbito pavor atemoriza
e invade então o coração de todos:
dizem que Laocoonte merecera
e pagara por ter ferido o bojo
com lança criminosa e arremessado
no sagrado carvalho um dardo vil.
Bradam que se recolha o simulacro
e que ao poder da deusa roguem todos.
Fendemos as muralhas da cidade.
Mãos à obra, nos pés colocam rodas
e laçam o pescoço: cheia de armas,
a máquina fatal transpõe os muros. (Eneida, II, 297-324, Tradução de Márcio Thamos).
Não cabe aqui nenhum comentário sobre a postura dos troianos de julgar merecido o nefasto acontecimento que selou o trágico destino de Laocoonte e que, na verdade, é o próprio prenúncio da queda da cidade. Mas merece nota o fato de que as serpentes, após matarem o sacerdote e os seus filhos, busquem abrigo no altar de “Tritônia”, que é um epíteto de ninguém menos que Palas Atena. A deusa recebe esse epíteto devido ao local onde teria nascido, pelo menos de acordo com uma versão do mito que envolve a sua origem, precisamente às margens do lago Tritônio. Certa vez em que padecia de uma terrível dor de cabeça, Zeus “expele” Atena na beira do lago. Enfim, Tritônia, nos versos de Virgílio - e ao que tudo indica -, é Atena, e o fato de as serpentes se abrigarem justamente no altar de Atena nos dá um claro indício de que a maldição tenha partido da deusa, não de Apolo ou de Poseidon, que sequer são referidos na cena por Virgílio. Outro ponto importante é a referência, nos versos, à presença de um escudo no altar, pois Atena nasceu da cabeça de Zeus já munida de armadura, espada e escudo, o que revela o seu aspecto guerreiro - há outros muitos aspectos da deusa, mas esse é aqui o mais relevante. Enfim, de acordo com a narrativa de Virgílio, tudo leva a crer que a maldição das serpentes sobre o sacerdote de Apolo tenha sido lançada por Atena logo após a sua tentativa de impedir a entrada do cavalo nos domínios de Tróia, agravada essa atitude pelo lançamento do dardo.
Bem, até aqui nos detivemos na versão oferecida por Virgílio. Ela não é a única a apontar as razões da maldição lançada contra Laocoonte, a ponto de se questionar se a estátua foi esculpida com inspiração no poema da Eneida. O que sabemos com certa segurança é que três escultores de Rodes são os seus autores: Hagesandro, Atenodoro e Polidoro. Sobre a autoria da obra, tida por muitos como “controversa”, Plínio (o Velho) é bastante claro, e não é nada razoável supor equivocado que um homem que viveu em tempos próximos à realização do trabalho tenha sido tão categórico sobre esse ponto, inclusive oferecendo pareceres pessoais sobre a sua grandiosidade:
“A reputação de alguns, distinguida através do que seus trabalhos possam ser, tem sido obscurecida pelo número de artistas envolvidos em uma única tarefa, porque nenhum indivíduo monopoliza o crédito, nem tampouco podem vários deles ser nomeados em igualdade de condições. Este é o caso do Laocoonte no palácio do Imperador Tito, um trabalho superior a qualquer pintura e a qualquer bronze. Laocoonte, seus filhos e os maravilhosos corpos envolventes das serpentes foram esculpidos a partir de um único bloco, de acordo com um plano acordado por estes iminentes artesãos Hagesandro, Atenodoro e Polidoro, todos de Rodes.” (PLINY the Elder. The Natural History. In: CRANE, Gregory R. Perseus Digital Library. Medford/Somerville, MA: Tufts University, 2004. - Tradução de Marcelo de Souza Silva)
Supor Plínio equivocado sobre a autoria seria como duvidar, hoje, da autoria da Nona Sinfonia de Beethoven. De resto, deixamos aqui totalmente de lado essa discussão. O que é realmente digno de nota é uma outra versão, como já dissemos acima, para a razão da maldição lançada sobre Laocoonte.
Ora, dois poetas líricos gregos, dos quais só conhecemos fragmentos, a saber, Baquílides (520-450a.C.) e Eufórion (276-225a.C.) sugerem que Laocoonte teria sido punido por Apolo, de quem era sacerdote (e aqui a versão de Virgílio se confirma), descumpriu preceitos do deus que o proibiam de casar-se e de ter filhos, algo que ele, em todas as versões da lenda, não cumpriu. Eufórion, nos poucos fragmentos dos seus versos, ao menos dos quais temos notícias através de Maurus Honoratius, um gramático do século IV d.C. - que os conservou -, afirma que Laocoonte teria dormido com a sua esposa, Antíope, no próprio templo de Apolo. Essa versão da maldição divina sobre Laocoonte é completamente incompatível com a de Virgílio. É bom lembrar, a respeito de versões tão distantes no tempo, que a narrativa de um certo Homero sobre a guerra e queda de Tróia teria ocorrido no século VIII a.C. Dizemos, “um certo Homero” porque não se sabe sequer se Homero existiu, mas a ele foram atribuídos os dois primeiros poemas da literatura ocidental: A Ilíada e a Odisséia. Isso quer dizer que poetas já cantavam os feitos de heróis do conflito entre gregos e troianos séculos antes de Virgílio - para falar com mais precisão, ao longo dos oito séculos que distanciam Homero e Virgílio.
Os conflitos de versões não terminam aqui e tampouco se restringem a esse tema sobre a divindade que amaldiçoou Laocoonte de modo tão terrível. Há versões que apontam que Laocoonte foi sacerdote de Poseidon, não de Apolo, o que ganha alguma plausibilidade pelo lugar de onde emergem as serpentes: do mar, isto é, dos domínios de Poseidon. Outras versões sobre a inspiração da grandiosa estátua do Grupo de Laocoonte colocam em questão se de fato os seus escultores teriam ou não tomado como referência a Eneida de Virgílio, mas poemas anteriores à própria era romana. Há também quem questione a originalidade da obra e afirmam que os seus escultores apenas replicaram uma velha versão grega em bronze, o que de fato foi uma atitude recorrente entre os escultores romanos. Mas essas discussões exigem toda uma investigação. É possível - e talvez necessário - um curso inteiro centrado apenas na densidade histórica e mítica que envolve o Grupo de Laocoonte. Infelizmente, uma exposição completa desse ponto não cabe aqui.

Considerações sobre a história e a estética do Grupo de Laocoonte
Realizei até aqui uma exposição do mito de Laocoonte, mas não da obra de arte em si: a estátua cuja autoria é atribuída por Plínio, o Velho, a Hagesandro, Atenodoro e Polidoro. O Grupo de Laocoonte (nome atribuído à obra devido ao grupo familiar que é morto pelas serpentes) é uma obra anterior ao período clássico, uma réplica de outro trabalho da era helenística ou um trabalho original dos três escultores mencionados por Plínio, que viveram no chamado “helenismo tardio”?
Para tentar uma resposta a essas perguntas, é necessário conhecer traços característicos das esculturas dos quatro períodos: arcaico, clássico, helenístico e romano, entendendo o romano como uma continuidade, no sentido que aqui nos interessa, do helenístico (ao menos até o último século da era pré-cristã). Se os três escultores replicaram - tese defendida por alguns críticos - uma versão mais antiga em bronze, dificilmente ela poderia ser anterior ao período helenístico, quando traços dramáticos passam da literatura à esculturas, algo que é revelado na expressão de desespero do sacerdote. No entanto, Plínio parece muito claro quanto à originalidade da obra, inclusive ao se referir à obra literária que a inspirou: A Eneida de Virgílio. Outra hipótese seria supor que a inspiração do trabalho procede de lendas que, diversamente da narrativa de Virgílio (Laocoonte foi punido por Atena por tentar impedir a entrada do cavalo em Troia), atribuem o castigo divino ao descumprimento de preceitos em relação a uma vida conjugal e a filhos, algo que Apolo vedou a Laocoonte que, ao descumpri-los, foi punido pelo deus. Enfim, qual é a verdade sobre a origem e a inspiração da grandiosa estátua?
Por que essas questões, que ainda trazem elementos do mito que envolve o personagem, interessam para uma análise estilística da obra? Ora, cada narrativa está ligada aos “estados” (“momentos”) da cultura helênica, isto é, aos períodos em que ela nasce e, em seguida, se propaga para eras posteriores àquilo que poderíamos chamar com propriedade de “grego” ou “helênico”. Em sentido estrito, helênico é anterior a helenístico, assim como os traços do helenismo herdados pelo império romano já recebem novos elementos que que não estavam presentes nos períodos clássico e arcaico. A nossa designação de “clássico” e “arcaico” é aqui referida aos períodos de formação de uma cultura helênica, aproximadamente entre o século XI a.C até o século de um suposto poeta chamado Homero, que teria redigido os poemas da Ilíada e da Odisseia por volta do século VIII a.C. A Grécia (a civilização grega ou helênica, não um país com essa denominação, que não existiu na antiguidade), entre os séculos VII a V a.C., entra nos períodos da sua consolidação e do seu apogeu no século V a.C. Ao interagir com culturas do oriente e com todas as civilizações que passa a gradativamente a controlar, Alexandre insensivelmente incorpora traços de outras culturas no interior da cultura que deseja propagar. A era romana, ao menos até o momento da elaboração da estátua de Laocoonte, não obstante o fato de ser uma herdeira de diversos traços da cultura grega, não deixa de acrescentar os seus próprios traços à arte e à cultura, e muitos deles não estavam presentes na cultura propriamente helênica (anterior ao helenismo e ao romanismo).
Por uma questão de clareza, vale uma breve observação: os períodos arcaico e clássico caracterizam a formação e o apogeu da cultura grega (helênica) de maneira não extensiva a outras culturas - ao menos não do modo como passou a se propagar a partir de Alexandre. O pan-helenismo de Alexandre e do período a que dá início expande essa cultura para além da Hélade (Grécia), ao passo que os romanos herdam todo esse passado. Evidentemente, antes de que nos proponham a questão, de modo algum atribuímos à cultura propriamente grega a ideia de purismo, que julgamos não existir em nenhum povo ou cultura. Definir o que chamamos de “original” sequer pode ser assunto para este texto. É algo que demandaria uma obra de muitas páginas.
O Grupo de Laocoonte, como já foi dito, apresenta elementos dramáticos das faces dos personagens que aborda e retrata. Não há, desde a formação até o apogeu da velha Grécia, esse tipo de traço nas esculturas. As expressões de pessoas, deuses e heróis, até pelo menos o século V a.C., nos mostram um caráter impassível, de certo modo sobre-humano. A expressão idealizada de formas humanas, com foco quase exclusivo nos traços harmônicos da arquitetura e da escultura, nos mostram uma despreocupação com sentimentos. As figuras humanas representadas pela escultura clássica são verdadeiras expressões de um tipo ideal de humanidade e da relação entre homens de deuses, sempre com foco em virtudes divinas que a humanidade poderia realizar em si. Esses traços nos mostram que o Grupo de Laocoonte possui poucas chances de ter sido um trabalho do período clássico ou do período arcaico da cultura grega. Laocoonte e seus filhos revelam expressões de sofrimento, angústia e medo da morte iminente. Evidentemente, os traços da velha harmonia das estátuas gregas também são preservados no estilo da composição, sendo que acrescidos de expressões que poderíamos chamar de “subjetivas”, completamente ausentes dos períodos anteriores. O que temos, assim, é uma comunhão de estilos que acabam por resultar em um estilo original, isto é, um substrato original da herança da escultura precedente. Isso se revela no contraste entre o rosto dos personagens e o seu corpo. Laocoonte e seus filhos apresentam corpos perfeitos e em pleno vigor. Os seus rostos, ao contrário, exprimem dor e desespero.
Há algo das expressões teatral e poética nas intenções dos escultores. De fato, as artes dramáticas já exprimem, desde o período clássico, a força das paixões e sentimentos humanos. A quem passa despercebido o drama de Aquiles diante da morte de Pátroclo, na Ilíada ou, na tragédia, o drama de Édipo e Jocasta, apenas para citar dois exemplos? Sob o aspecto dramático, as artes dramáticas atingem essas expressões do drama muito antes da escultura. Ao falarmos de autores como Homero e Sófocles, nos referimos a um período que abarca cerca de trezentos anos. Ao longo desse tempo, a expressão dramática já estava presente na poesia e no teatro (que abarca o período e é posterior à poesia e dela nasce), considerando aqui o fato de que as poesias trágicas e cômicas eram seguidas das suas representações teatrais, nas quais os atores levavam o drama poético para a cena. Tanto o piegas quanto sentimentos grandiosos foram representados pela epopeia, pela tragédia e pela comédia, como nos lembra Aristóteles na sua Poética, quando o filósofo macedônico constata a representação do comum (do vulgar) pela comédia e do grandioso pela tragédia.
A estátua de Laocoonte, não obstante o suposto realismo nos traços impressos nos corpos, apresenta uma desproporção entre a figura do sacerdote e dos seus filhos. Laocoonte é uma figura desproporcionalmente maior que os filhos, além de a velha “métrica” dos trabalhos do período clássico ser praticamente abandonada pelos escultores. A harmonia de conjunto presente nas obras, que era comum nas esculturas do século V a.C., dá lugar a uma harmonia das partes e dos detalhes. Hagesandro, Polídoro e Atenodoro, como é notório, abrem mão da harmonia do conjunto pela harmonia dos detalhes, um outro traço de uma perspectiva particularista de elementos da obra inexistente nas esculturas pré-helenísticas (anteriores ao período alexandrino). A desproporção apresentada no conjunto, de resto, pode ser associada à presença titânica das serpentes, capazes de dissolver a prudência de Laocoonte pelo titanismo da natureza - e isso causado por Atena, precisamente uma deusa tão profundamente ligada à ideia de civilização e de ordem. Esse elemento titânico e, de certo modo, fantástico - com fortes ingredientes da imaginação poética dos escultores - reaparecerá séculos depois no barroco.
A renascença procura recuperar esse naturalismo, que é como se chama o movimento que, entre outras coisas, procura o resgate da expressão das personagens representadas, para além da impessoalidade da arquitetura do período clássico. Esses elementos, por exemplo, podem ser encontrados em obras como a Pietà, de Michelangelo Lodovico, assim como em obras de Leonardo da Vinci, Raphael Sanzio, Sandro Botticelli ou, de maneira ainda mais marcante, na excentricidade de um Michelangelo Merisi da Caravaggio. As obras da renascença, de certo modo, já antecipam elementos da arte barroca - sem nos esquecermos de que há muitos “barrocos”. Certamente, o “naturalismo” e o elemento fantástico de Laocoonte estão presentes em períodos desse enorme e multifacetado movimento artístico da modernidade.
Em relação à Pietà, que se encontra no Vaticano, queremos apenas chamar atenção para a desproporção entre o tamanho da Virgem e o de Cristo ao seu colo. Michelangelo produz a desproporção, provavelmente, para provocar uma perspectiva geométrica que dá a um observador que contempla a obra, que está elevada sobre um pedestal razoavelmente alto em relação ao público, a sensação de pleno equilíbrio entre o tamanho da Madonna e de Cristo. A sensação de proporção é dada pelo ângulo e pela distância em que se encontra o observador em relação à obra (e poucos foram os que se deram conta disso). Em suma, o escultor italiano produz a desproporção justamente para que ela pudesse ser vista como uma proporção perfeita em razão da distância do observador. A relação entre Michelangelo e o Grupo de Laocoonte é curiosa, além de mostrar o quanto a obra atraiu o seu interesse desde sempre. Uma polêmica surgiu na renascença em relação ao braço direito de Laocoonte, uma parte que faltava à estátua em 1506, ano em que foi encontrada. A maioria dos analistas supuseram o braço direito (naquele momento ausente da obra) esticado, ao contrário do que podemos observar hoje: ele está dobrado sobre o ombro direito do sacerdote. O único a apontar para essa posição foi precisamente Michelangelo, sob o forte argumento de que o “desenho” (a contração) dos músculos entalhados na estátua encontrada no início do século XVI não deveriam deixar dúvidas sobre o braço dobrado. A análise de Michelangelo não foi considerada correta até o século XX, quando o braço de Laocoonte foi encontrado num relicário em Roma. Reconhecida a peça, ela foi imediatamente conduzida ao Vaticano, onde foi verificada a sua autenticidade e, ao mesmo tempo, a agudeza da análise de escultor italiano, o que nos mostrou, mais uma vez, a grandeza do seu gênio.
De todas as considerações precedentes, temos a dúvida levantada por críticos sobre a fonte de inspiração da estátua, o que nos reconduz novamente à análise de estilos e de época. As esculturas do período clássico não podem ser consideradas realistas, por mais formalmente perfeitas que possam parecer aos nossos olhos. As figuras humanas ali representadas não trazem nenhuma expressão facial e nenhum traço de dramaticidade, que, como vimos, já estavam presentes na poesia. A escultura do século V a.C., pelo contrário, mostra figuras humanas (representassem elas humanos ou deuses) idealizadas, isto é, figuras humanas com características sobre-humanas. Ora, dos três escultores do Grupo de Laocoonte apontados por Plínio, o Velho, dos quais não se sabe exatamente o ano dos seus nascimentos e mortes, ao menos se supõe que Polírodo era o mais velho, pois teria vivido entre os séculos II e I a.C. Hagesandro e Atenodoro teriam vivido no século I a.C., entre nascimento e morte. Caso seja verdadeira a informação de que a primeira versão da Eneida foi a público em 19 a.C., Polídoro teria participado do trabalho, na melhor das hipóteses, com mais de oitenta anos, o que deixa uma dúvida sobre o século do seu nascimento, sobre a sua participação no trabalho ou do seu vigor físico para participar de uma empreitada tão difícil sobre um único bloco de mármore - é claro que também está aqui em jogo um desconhecimento do real ano do seu nascimento e do período em que viveu. Quanto aos outros dois escultores, nada concorre para pensarmos que não possam ter sido co-autores da obra. A única dúvida é sobre qual teria sido a obra literária os inspirou, pois o mito de Laocoonte é bem mais antigo que Virgílio.
Outro ponto discutível, caso a obra inspiradora do Grupo de Laocoonte não tenha sido a Eneida, é sobre a datação da estátua, o que esbarra em outros pontos problemáticos. Lísipo, o escultor oficial de Alexandre, interagiu com várias culturas de norte a sul da Europa, além do Continente Africano e da Ásia. Os elementos dramáticos da escultura clássica (entendendo aqui o “clássico” como o “greco-romano”, o que abrange obras do século V a.C até a era romana, não ao que até aqui chamamos de “período clássico” - século V a.C) começam a ganhar os seus contornos através de escultores que, como Lísipo, começam uma interação com a escultura de outros povos. Lísipo, como não poderia deixar de ser, foi contemporâneo de Alexandre, que faleceu aos 33 anos (323 a.C.). Foi a partir desse período que a escultura ocidental começou a assimilar os elementos dramáticos a que já nos referimos. Desse modo, é pouco provável que o Grupo de Laocoonte, apesar de o mito ser muito mais antigo, tenha sido esculpido antes de Alexandre. A estátua, com muita probabilidade, é do período helenístico, e há críticos que tendem a atribuí-la ao helenismo tardio, já bem próximo do seu fim e, assim, a um tempo que data de algo próximo no início da Roma Imperial, cujos primeiros passos foram dados por Júlio César, falecido em 44 a.C., morto pelos senadores romanos, embora a sua fundação oficial seja atribuída a Otávio Augusto em 27 a.C., que reinou sobre Roma até a sua morte em 14 d.C. Isso significa que a Eneida foi escrita por Virgílio sob o governo de Augusto. Se o Grupo de Laocoonte foi esculpido por inspiração da Eneida e os autores foram os três escultores de Rodes, segundo a versão de Plínio, então ela data dos primeiros 19 anos da Roma Imperial, não antes disso (lembremos de que a Eneida foi a público pela primeira vez em 19 a.C.).
Se a incerteza da autoria pudesse ser reforçada pela provável idade avançada de Polídoro, nada obsta a que a inspiração tenha vindo dos poemas de Baquílides (520-450a.C.) e de Eufórion (276-225a.C.), que nos apontam outra razão da punição divina sobre Laocoonte, isto é, não a ira de Atena, mas de Apolo, descumpridos os preceitos que lhe vedavam o casamento e filhos. Essa versão faz sentido pelo fato da punição dos filhos, não diretamente do sacerdote, que morre na tentativa de socorre-los. Por que Atena pune os filhos do sacerdote e não diretamente o próprio sacerdote? Uma vez, porém, que não se sabe ao certo quando nasceu Polídoro, é possível que tenha, juntamente com Hagesandro e Atenodoro, participado do trabalho. O problema aqui não envolve diretamente fatos ou hipóteses plausíveis, mesmo porque não os conhecemos, mas a ausência de documentos que nos apontem, sem grandes margens de dúvidas, para outra possibilidade que não seja a inspiração “virgiliana” da estátua.
Contudo, se a obra é inspirada por Virgílio ou pelos poetas líricos (Baquílides e Eufórion), o fato é que as características da estátua nos indicam a pouca probabilidade de ter sido feita antes de Alexandre. Os seus traços dramáticos e, em certo sentido, “desproporcionais”, não podem datar de um período anterior, ainda que Baquílides tenha vivido entre os séculos VI e V a.C. Quanto a Eufórion, o poeta viveu no período helenístico. Ora, mas nada impede que a obra tenha sido inspirada nesses poetas e, não obstante, realizada segundo os padrões da era helenística. O único problema é o registro dos poemas dos dois líricos. O gramático Maurus Honoratius, que tinha conservados os poemas, viveu no século IV da era cristã (quatro séculos após a Eneida), e não se sabe, antes dele, de registros escritos das obras desses poetas. Aqui, a dúvida não é exatamente se os autores do Grupo de Laocoonte conheciam os poemas dos dois poetas gregos, mas a falta de uma documentação que o comprove. Portanto, a versão de Plínio, com todos os problemas que envolve, é sem dúvida a mais segura. A história é feita e acompanhada de interpretações, como a admitimos hoje, mas é absolutamente impossível sem documentos. Portanto, até o ponto em que estamos, não temos outra opção que não seja a de dizer que os seus escultores são Hagesandro, Polídoro e Atenodoro e a sua inspiração é a Eneida de Virgílio.
Quanto à existência de uma versão anterior da qual a obra em mármore seja uma réplica, essa hipótese não pode ser descartada, mas nenhum documento o comprova. Se for esse o caso, ela só poderia datar, pelas suas características, do período helenístico; a não ser que a “réplica” tenha alterado substancialmente as características da original, mas é pouco provável que uma abordagem de Laocoonte e seus filhos tenha sido cogitada sem uma mente instruída pelo tom de dramaticidade das esculturas do período, pois o tema, seja por qual fonte o consideremos (Virgílio ou a poesia lírica), traz um forte apelo dramático. Do mesmo modo, pela época da sua composição - e aqui podemos fixá-la com razoável segurança -, ela interage com o período clássico, com as eras helenística e romana e enviam inspirações à renascença e ao barroco. Na verdade, as grandes obras de arte dialogam com todos os tempos, culturas e gerações, desde que, por algum meio, venham a público.
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