Filosofia e Erudição



A filosofia é pura erudição? O que é a filosofia e como é preciso ensiná-la? - A filosofia enquanto admiração e “encantamento do mundo”.
Iniciarei uma exposição que abarca cinco dificuldades básicas dos iniciantes no estudo da filosofia: pensar que a filosofia é pura erudição; que os filósofos “viajam”; que basta ler os filósofos para aprender filosofia; que devem ler os filósofos “criticamente”; não aceitarem que precisam se desarmar diante da leitura de um texto de filosofia.
Normalmente, os iniciantes no estudo da filosofia se assustam acreditam (é claro que com razão) no fato de que precisam estudar muito, o que mostra, via de regra, a sua pouca disposição para a leitura. Que os textos de filosofia não são fáceis, não é novidade para ninguém que por eles tenha se aventurado. Mas isso leva diretamente à primeira crença: a filosofia é erudita, uma disciplina para uma pequena elite de polímatas. Essa dificuldade inicial reflete a verdade sobre o estudo da filosofia? Na verdade, sim e não. Explicaremos a razão do sim e do não.
Na verdade, como disse Platão na sua Sétima Carta, o filósofo, para fazer jus a esse nome, precisa realmente “saber poucas coisas”. Pessoas eruditas (que leem muito sobre muitos assuntos) não são filósofas por causa da sua erudição. Heráclito de Éfeso (século VI a.C), em um dos fragmentos que nos chegaram na coletânea Diels-Kranz, também dizia que “a polimatia não instrui a inteligência.” Por quê, então, os filósofos parecem eruditos e praticamente todos acabam realmente se tornando eruditos? Erudição e filosofia não se excluem, embora a “pouca coisa” à qual se refira Platão seja fundamental para que, erudito ou não, alguém venha a se tornar filósofo. Sempre tendemos a julgar a filosofia pelo seu passado, isto é, pela multidão de pensadores que nos antecederam. Isso, além de relacionado ao problema da erudição estéril, também procura impedir, por um “conservadorismo inconveniente” (o conservadorismo não é um mal em si), que novos pensadores surjam com ideias e espírito novos capazes de projetar a filosofia para diante. Estamos sempre preocupados com o que foi pensado, com a cultura já estabelecida e constituída, raramente com a cultura que podemos constituir. Kant assinala o problema nos seus Prolegômenos:
“Há letrados para quem a história da filosofia (tanto antiga como moderna) é a sua própria filosofia; os presentes prolegômenos não são escritos para eles. Deverão aguardar que os que se esforçam por beber nas fontes do espírito tenham terminado a sua tarefa, e somente então será a sua vez de levar a cabo a sua tarefa. Mas, na sua opinião, nada pode ser dito que já o não tenha sido e isto, na realidade, pode também convir como uma predição infalível a toda a obra futura; pois, visto que o entendimento humano divagou durante muitos séculos de múltiplas maneiras sobre inumeráveis objetos, nada é mais fácil do que encontrar para toda a novidade uma obra antiga que com ela tenha alguma semelhança.”
Normalmente, professores de filosofia, além de considerarem a história da filosofia e da cultura um conjunto de fatos consumados, se restringem a seguir escolas filosóficas já constituídas e, assim, a lecionar a disciplina com a clara intenção de formar os seus alunos na sua própria diretriz ou linha de pensamento, sempre ligada à história de um determinado problema ou de um único filósofo, estudado incessantemente sob vários aspectos. Isso não impede, necessariamente, que um aluno compreenda o que é filosofia, mas ele sempre precisa chegar por ele mesmo à essência da definição da disciplina. Desse modo, professores podem constituir verdadeiros obstáculos à descoberta, que precisa ser do aluno, do modo como ele mesmo compreenderá a filosofia, algo sempre associado ao ser único que somos. Somente quando encontramos a nossa visão e, de algum modo, nos tornemos nós mesmos a filosofia, nascerá o pensador, o filósofo. Nada nos diz mais profundamente sobre a nossa procura do que aquilo que nasce das profundezas do nosso próprio ser. Já dizia Camus, logo no início do seu Mito de Sísifo: “Só há uma questão filosófica verdadeiramente séria: o suicídio. Julgar que a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. Se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem dez ou doze categorias, isso vem depois.”
O que Platão, Kant e Camus têm em comum no que disseram ou no que deixaram aberto ao nosso espírito? Platão, ao dizer que a filosofia exige “pouca coisa”, fala de algo fundamental e sem o que não é possível filosofar, algo como uma perspectiva vital, que ele mesmo, no seu diálogo Teeteto, chamará “admiração” (thaumádzein). Falaremos em seguida desse ponto. Kant diz da empreitada radical (no melhor sentido de ir até a “raiz”, origem do termo “radical”) de pensar por si mesmo e fazer a filosofia evoluir. Camus fala sobre “viver”, sobre a vida “valer a pena”. O que isso significa? Significa o encantamento com o caráter extraordinário da vida, que pode nos abandonar e nos conduzir a um ceticismo radical - aqui, uma questão, literalmente, de vida ou morte. Os três pensadores, de épocas muito distantes entre si, nos falam sobre a experiência sempre nova de viver e de pensar. Só vivemos e pensamos a partir do momento em que nos fazemos unos, quando conquistamos a nós mesmos. Assim, a tradição e a cultura eruditas nos servem de guias para atingirmos esse ponto em que passamos a pensar por nós mesmos. Num dado momento, é preciso que nos libertemos de que já foi dito para, a partir da própria tradição que nos antecede (e sobre a qual nos debruçamos por tantos anos de dedicação), projetarmos novas possibilidades para diante. Arthur Schopenhauer nos dá, a esse respeito, uma fórmula excelente: “Enquanto lemos, o nosso espírito é palco de ideias alheias. Sabemos o que o filósofo disse enquanto caminhava. Contudo, para saber o que ele efetivamente viu no seu caminho precisamos olhar com os nossos próprios olhos.”
Mas, afinal, como podemos definir a filosofia? É bom lembrar, antes de tudo, que “definir” é estabelecer limites, isto é, “delimitar” o conceito de algo. A definição, no entanto, apenas nos deve remeter, dentro de um balizamento, aos seus diversos sentidos possíveis. O primeiro filósofo a tentar definir o conceito de filosofia - ou seja, tentou dizer o que ela é - foi Aristóteles. No primeiro livro dos manuscritos atribuídos ao filósofo - conhecidos como Metafísica -, Aristóteles nos diz que a filosofia é a “ciência de certas causas e de certos princípios.” Em outros pontos dos seus escritos que chegaram até nós, ele a define como “a ciência das causas primeiras e dos primeiros princípios.” No mesmo texto em que diz ser a filosofia uma “ciência de princípios” (a Metafísica), Aristóteles nos diz que ela começa com “a admiração de que as coisas sejam como são”. Tendemos a entender o mundo como um fato consumado, isto é, como se nada fosse necessário para que ele se apresentasse diante de nós tal como se apresenta. Voltando a Heráclito, “acordados, estamos dormindo” em relação ao maravilhamento do mundo, ao seu caráter sempre novo e extraordinário. É esse maravilhamento e admiração de que as coisas sejam como são que nos impulsiona a buscar o saber sobre as coisas. É isso que nos impulsiona a pensar e a viver.
Aqui já surge um primeiro estranhamento sobre a definição de Aristóteles: que tipo de causa e princípio são buscados pela filosofia? Não são todas as coisas constituídas por causas e princípios? Não é fato que “nenhum evento procede do nada?” A definição de filosofia parece óbvia, pois todo esforço investigativo parece buscar causas e princípios. Mas aqui está a questão: a filosofia busca os princípios de quê? Ora, as ciências modernas nos explicam certas coisas, nos descrevem como acontecem. Há bibliotecas imensas que nos fazem entender, caso nos dediquemos ao estudo, como se comportam realidades delimitadas por um campo específico da ciência. Na verdade, os princípios e causas a que se refere Aristóteles são referidos às coisas de maneira geral, a tudo o que nos cerca. Se uma ciência determinada investiga, por exemplo, os organismos (caso da biologia), ela apresenta princípios restritos a esse campo da realidade. A admiração com o mundo provocada pelo impulso da filosofia, no entanto, não se dá a partir de um evento determinado e delimitado por alguma ciência. O que nos admira na filosofia é a própria existência e os mistérios que a envolvem, inclusive os mistérios sobre a nossa própria existência. Essa admiração em sentido amplo só pode acontecer quando nós mesmos nos abrimos para o quanto ignoramos o mundo e os seus fundamentos. Esse, para Aristóteles, foi o impulso primordial que fez surgir as religiões, a arte, a ciência e, fundamentalmente, a própria filosofia. Algo em nós - chamemos de “espírito” ou como quisermos - precisa ser despertado para que olhemos o mundo com a estranheza necessária capaz de impulsionar a busca pelo conhecimento e pela nossa profunda integração com o mundo. Precisamos “nascer” para essa experiência original de busca pelo sentido das coisas. Isso significa que, em primeiro lugar, o “princípio” (arché) a que se refere Aristóteles também está em nós; somente depois dessa mudança de atitude é possível a admiração com o mundo e, enfim, perguntarmos, das entranhas da nossa própria existência: - “Por que o mundo é como é?” Sócrates costumava dizer que a grande e a primeira coisa que um filósofo deve saber é que não sabe. Admiração é a plena consciência da nossa ignorância. Quem já julga saber alguma coisa elimina de si mesmo o desejo de busca, de procura. Ensinar filosofia é, portanto, como também dizia Sócrates, um ato de “parturição de ideias”, ou seja, de conduzir o aluno ou discípulo para que ele desperte em si mesmo o sentimento de ignorância, de estranhamento, de admiração. Afinal, a ignorância que se assume como tal é o primeiro princípio da filosofia.
Como fica, então, a questão da erudição e de “saber muitas coisas”, que é como aparece o filósofo para a maioria das pessoas? O fato é que “o mundo” é ilimitado de coisas e pessoas, além de eventos de toda sorte. Foi dito, a partir de Aristóteles, que a filosofia é a “ciência dos princípios”. Como todas as coisas existem em razão de causas e princípios, a filosofia dialoga com praticamente todas as áreas do conhecimento. Não é mais relevante o fato de, como se diz, a filosofia “haver gerado todas as ciências” (embora essa afirmação não deixe de guardar em si alguma verdade). O fato é que o impulso pelo avanço do conhecimento e das ciências deixaria de existir caso o mistério da existência deixasse de ser uma questão. Na hierarquia das nossas buscas pelo conhecimento, o primeiro impulso que nos move é o simples desejo de saber, e esse saber é o saber dos princípios. Por essa razão, o filósofo possui um interesse universal sobre todas as coisas, embora não desenvolva cada uma das ciências em particular. Uma vez despertada a humanidade para esse caráter primordial de procurar e dar sentido ao mundo, todos os outros conhecimentos se tornam possíveis. Ora, na medida em que o interesse do filósofo é universal, não há como ele não ampliar os seus conhecimentos rumo a uma erudição, embora a sua erudição não baste para a preservação daquele impulso fundamental para a busca do conhecimento. Mas mesmo ali onde parecemos não ter uma vocação filosófica, sempre tentamos emitir conceitos e juízos sobre as coisas. Para preencher a lacuna do conhecimento, somos amiúde surpreendidos pela sua presunção, o que faz com que nos precipitemos a emitir pareceres sobre o mundo muito distantes de uma fundamentação. Emitimos juízos sobre as coisas, no entanto, em razão da própria necessidade humana de não sucumbir à ignorância e ao ceticismo. Exatamente por isso, de algum modo sempre filosofamos, desde o momento em que julgamos incorreto o ato de alguém até o momento em que exigimos a existência de um ser supremo que criou o mundo e estabeleceu valores e princípios de conduta. Nada errado com isso, mas a filosofia exige que o pensamento coloque em cheque a possibilidade de que tudo o que pensamos pode não passar de crença. Dizer que uma visão de mundo é apenas crença não significa que estejamos equivocados ao dizer que algo é desse ou daquele modo. Colocar as nossas crenças em questão apenas nos leva a buscar a sua raiz e, afinal, qual delas é capaz de se sustentar diante de razões. Nesse caso, é evidente que manteremos no nosso espírito muitas delas tanto quanto abandonaremos outras igualmente por razões que nos convençam a fazer isso. Para isso, é necessário saber o que significam essas duas coisas: o que é pensamento crítico? Como o pensamento crítico opera para que saibamos procurar as razões de pensarmos como pensamos? Isso nos lavará a uma relação mais autêntica e menos dogmática acerca da relação entre o que pensamos e as coisas que estão diante de nós, que aguardam sempre que pensemos sobre elas.
A grande revolução a ser promovida no modo como atualmente a filosofia é ensinada é a capacidade do mestre de despertar o seu aluno para o insaciável desejo humano de saber e de se integrar com o mundo, com a vida e com toda as coisas que nos cercam. Esse é o “pouco” a que se referia Platão que, na verdade, é uma ironia, pois que esse “pouco” é tudo o que se faz necessário para que o impulso humano para o pensar filosófico aconteça. Filosofia não é amor à crença, mas à sabedoria, mesmo ali onde somos persuadidos a preservar as nossas crenças, o que não exclui a necessidade de abandonar boa parte delas. O que dizemos aqui revela o sentido socrático do “sei que não sei”. O método utilizado e nomeado por Sócrates (a parturição de ideias) é a maiêutica. Esse termo procede de verbo grego “maieuo” (infinitivo “maieuein”), que é o ato praticado pelas parteiras, que retiram do ventre feminino o filho prestes a nascer. Sócrates faz uma analogia do seu método, que constitui para ele a única possibilidade de ensinar filosofia, com o caminho pelo qual o mestre traz à luz o que estava oculto e prestes a nascer da alma (psyché) do discípulo, algo que lá já estava em estado de latência. O papel do mestre, assim, não é exatamente o de ensinar, ao menos não do modo como normalmente compreendemos o termo “ensinar”. Para Sócrates, assim como para muitos dos filósofos que trataram da questão, “ensinar” não é oferecer algo pronto ao aluno, mas a capacidade de despertar o aluno ou discípulo para a busca e para o encontro singular das suas próprias respostas. As perguntas fundamentais da filosofia precisam ser minhas, assim como as respostas. Precisam ser despertas em nós como uma necessidade vital, isto é, não por ouvirmos dizer, de fora, que são “questões filosóficas”. Uma vez que isso seja conseguido, então o aluno, despertado pelo mestre, aprende a buscar o conhecimento por ele mesmo.
Aqui não queremos dizer que só haja um modo de ensinar filosofia. O que realmente dizemos é que não pode faltar ao professor, independente do método que venha a escolher, a capacidade de despertar o espírito do discípulo para a sua chama interior pela busca do conhecimento. Assim, a filosofia, como “ciência dos princípios”, é, “apenas” e primeiramente, esse anseio individual pelo saber. O que ela será após o desenvolvimento disso é outra questão. A erudição (o conhecimento de muitas coisas) é uma mera consequência dessa atitude, a mais difícil de ensinar e de aprender. Nem o simples desejo da leitura e do estudo, ou a vocação religiosa para cultuar o Divino, ou o amor às artes, podem acontecer sem que, antes, tenhamos despertado o nosso espírito para a necessidade de saber sobre o mundo.
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Busto de Aristóteles (Século IV a.C). Cópia romana de uma escultura de Lísipo.
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