Sobre a Electra de Sófocles
A Electra de Sófocles ganha definitiva notoriedade no mundo contemporâneo devido a dois autores: Freud e Nietzsche, embora a peça vá muito além do que pode ser fixado por um autor, que sempre extrai do poema o que lhe importa para as suas teses. A personagem se torna um símbolo no pensamento de Freud pela suposta “fixação” da personagem na figura do pai (Agaménon), embora a peça nos indique a vingança como princípio que leva Electra e o irmão, Orestes, ao plano de assassinar Clitemnestra, pelas mãos de quem Agaménon foi morto. Seria o caso de dizer, se Freud tem razão, que Orestes também possuía uma fixação na figura do pai. Afinal, ele é uma peça-chave no desfecho trágico do drama e não cogita ao longo da peça nada além de vingar o pai e matar a mãe.
Nietzsche, ao contrário, considera a estirpe dos Átridas pelo aspecto do destino e da maldição que sobre ela recai, desde o momento em que Agaménon se vê “obrigado” a sacrificar a pequena Ifigênia no altar de Ártemis, já que foi essa a condição imposta pela deusa para que os exércitos gregos conseguissem ventos para chegar a Troia pelo mar. Nietzsche se refere a um contexto trágico muito mais fundamental, ao lançar um olhar para a tragédia clássica que nela via a superação dos impulsos titânicos e primordiais da natureza que levaria ao triunfo da civilização. Diz ele em O Nascimento da Tragédia:
“Aquela enorme desconfiança para com as forças titânicas da natureza; aquela Moira (destino) reinante sobre todos os conhecimentos, sem compaixão; aquele abutre do grande amigo da humanidade, Prometeu; aquela sorte espantosa do Sábio Édipo; aquela maldição da raça dos Átridas, que força Orestes ao matricídio; enfim, toda aquela filosofia do deus da floresta, juntamente com seus exemplos míticos, em virtude da qual morreram os melancólicos etrúrios - foi suplantada continuamente pelos gregos por aquele mundo médio dos olímpicos.”
Aristóteles assinala a diferença nos tipos de drama pela grandeza dos personagens trágicos e o comum e vulgar dos personagens cômicos. A grandeza diante de um devir hostil e a capacidade humana de auto-superação diante da grandeza da existência é uma marca do modo como Nietzsche compreendeu a tragédia ática. Ao ler a Etectra de Sófocles, temos a impressão de qualquer coisa que não seja uma fixação da personagem homônima na figura do seu pai. Ao contrário, ela revela a mesma grandeza de propósitos inerente a todo personagem trágico, independente da injustiça ou da impiedade dos seus atos, que de qualquer maneira recairão - ou já recaíram - sobre o personagem. Exatamente como Agaménon, que foi capaz de imolar a própria filha no altar de Ártemis pelo triunfo dos gregos na guerra de dez anos contra os troianos, Orestes e Electra alimentam o seu desejo de realizar o que julgam grandioso e necessário que se cumpra. O que inspira Electra, ao longo de todo o drama, é a “fixação” no ato que pretende praticar, jamais a “figura do pai”.
A tragédia conta com os personagens de Orestes e seu Preceptor, Electra, Crisótemis (a terceira entre os filhos vivos de Agaménon), Pílades, amigo de Orestes, o Coro e o “Corifeu”, Clitemnestra e seu então esposo, Égisto.
O primeiro diálogo entre o Preceptor e Orestes já revela os propósitos do filho de Agaménon, que era o de simular a própria morte para causar em Clitemnestra a sensação de que estaria liberta do perigo de ser morta pelo filho, já que Electra parece incapaz de realizar o plano sozinha. Orestes afirma que o plano lhe fora revelado por Apolo (após uma consulta ao oráculo). Já sabemos, desde as primeiras linhas do poema, o que se sucederá.
No palácio de Égisto e Clitemnestra, Electra prossegue com as suas maquinações sobre como realizará o seu intento de vingar o pai, plano para o qual pede o auxílio da sua irmã, a cuidadosa e prudente Crisótemis, que se recusa a participar da vingança e chama Electra à razão e à necessidade de obedecer aos poderosos. Mas Electra não dá nenhum sinal de que irá ceder - como de fato não cede - aos conselhos da irmã. A sua decisão supera qualquer reflexão sobre a justiça do que intenta fazer, mesmo que isso lhe custe a vida.
Entrementes, Clitemnestra surge e apresenta as suas razões para haver matado o ex-esposo, que imolou Ifigênia a Ártemis, isto é, entregou a sua filha à morte pela ambição de tomar a cidade de Troia.
Os planos de Orestes se cumprem. Chegando à casa dos seus antepassados Átridas, o mensageiro (o idoso Preceptor) traz a falsa notícia da morte de Orestes, conforme a orientação do próprio Orestes nos primeiros versos da peça:
“Dize-lhes e confirma com teu juramento,
que por fatalidade faleceu Orestes,
lançado fora de seu carro velocíssimo
nos jogos píticos; assim hás de falar.
Enquanto vais esparjo tristes libações
na sepultura de meu pai e lhe dedico
também os meus cabelos, como quer Apolo;
após as libações sacramentais traremos
a urna brônzea feita por artista hábil,
oculta, por enquanto, em meio àquelas árvores
e iremos alegrá-los com a notícia falsa
de que meu corpo forte não existe mais.”
Chegando aos domínios de Clitemnestra, o Preceptor segue para o palácio para anunciar a morte de Orestes, que recebe a falsa notícia como um alívio. Apesar de todos os esforços da rainha para demonstrar descontentamento pela morte de um filho, o testemunho de todos os personagens é o de uma mulher feliz. Electra lamenta profundamente o seu destino ao ouvir as palavras do mensageiro, embora prossiga com os planos de vingar o pai, mesmo ao supor morto o seu irmão, o que tornaria o seu propósito praticamente impossível.
O plano de Orestes de fazer as libações e os ritos necessários ao seu pai, inclusive, por ordem de Apolo, de lhe entregar fios do seu cabelo, é visto por Crisótemis, que entende o que vê como um sinal de que Orestes vivia e estava próximo. Sem saber da falsa notícia da morte do irmão, aparece para trazer a boa nova a Electra, que lhe surpreende com a triste notícia. Sem saber em que acreditar, Crisótemis compartilha o desespero de Electra e assim permanece até a chegada de Orestes que, sem ser reconhecido, aparece diante de Electra e lhe diz que se desfaça do seu desespero.
Electra, sem entender as palavras daquele que julgava um forasteiro, lhe pergunta por que não haveria de lamentar profundamente a morte do irmão. Compreendendo que seria impossível aplacar o sofrimento de Electra por outro meio, Orestes se revela e, diante da alegria da irmã, lhe pede prudência. Ela não poderia dar sinais de alegria, pois isso colocaria tudo a perder. Sem vacilar ou hesitar em nenhum momento, Orestes penetra o Palácio e mata a própria mãe. À chegada de Égisto, Orestes completa o seu plano e dá fim à vida do padrasto.
A fé absoluta de estar cumprindo as predições de Apolo não nos apresenta Orestes diante de nenhum sentimento de culpa, como sugere o coro momentos antes de que se cumprisse o plano. Assim como Égisto e Clitemnestra nada parecem sentir diante da trágica notícia da morte de Orestes, Electra e o irmão executam o plano como se apenas realizassem uma trama das Moiras (do destino). É exatamente assim que se manifesta Égisto ao supor que está diante do corpo do enteado:
“Bom Zeus! Meus olhos veem uma cena agora
capaz de provocar inveja até nos deuses!
(Se houver blasfêmia em minhas expressões, renego-as!)
(Dirigindo-se a Orestes e Pílades)
Tirai depressa o véu que lhe recobre o rosto!
Quero prestar-lhe o meu tributo de lamentos,
pois afinal de contas sou parente dele.”
Não supunha que o corpo que ordenava que fosse descoberto pelo véu era o da esposa, que acabara de ser morta pelo próprio filho. As palavras de júbilo proferidas por Égisto são seguidas pelo reconhecimento da trama que o envolvia.
As últimas palavras do Coro são, no mínimo, ambíguas, mesmo que revelem aparente clareza quanto ao desfecho favorável da trama a favor de Orestes e Electra:
“Bravos filhos de Agamemnon!
Quantos males suportastes
por amor da liberdade!
Hei-la enfim recuperada
graças à bravura vossa!”
O que está sempre em jogo no poema trágico (caso de todos do gênero) é a trama do destino que envolve pessoas de nobre estirpe, para as quais a desdita e a glória caminham de mãos dadas e em que tudo pode ser ao mesmo tempo grandioso e pérfido.




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