"Os filósofos viajam" - você já ouviu um aluno dizer isso?
Textos da série: as cinco dificuldades básicas dos iniciantes no estudo da filosofia
“Os filósofos ‘viajam’”
Quantas vezes ouvimos alunos pronunciarem a frase “os filósofos viajam”? Na verdade, eu a ouvi e ouço constantemente de alunos e leitores iniciantes dos livros nos filosofia. Normalmente, os que se aborrecem com a maneira de falar dos filósofos são os mesmos que não apreciam a chamada grande literatura. Preferem, caso se trate de alguém que aprecie algum tipo de leitura, livros e discursos “mais objetivos”, que “expliquem” ou contem uma história "diretamente" e "sem rodeios”.
Caso você faça parte do grupo de pessoas que pensam assim, um dos dois problemas está em questão:
1.Você não aprecia ou não aprendeu a apreciar a filosofia;
2.Você está mais propenso a crer do que a saber sobre o que ouve (ou lê).
2.Você está mais propenso a crer do que a saber sobre o que ouve (ou lê).
Falarei dos dois problemas separadamente. Apreciar ou deixar de apreciar a filosofia não é um problema. Há pessoas que vivem muito bem sem jamais terem tido contato de espécie alguma com a filosofia - restringir-me-ei apenas à filosofia, pois falar da grande literatura exigiria análises paralelas e analogias que nos desviariam do nosso propósito. Apenas digo que a grande literatura - e em geral a grande arte - não é de apreensão ou percepção fácil. É preciso esforço para que possamos compreender o que está diante de nós. Alguns apreciadores de arte e literatura decidem por si mesmos se preferem a literatura e a arte difíceis ou aquelas que vêm mais diretamente à nossa compreensão. Resta saber se o aluno ou leitor realmente compreendeu ou se simplesmente acreditou na grandeza do que viu, leu ou ouviu. Grandes artistas e filósofos não realizam as suas obras visando ao gosto do público, ou pelo menos não é esse o seu objetivo principal. Essa é a razão pela qual muitos grandes artistas (escritores, músicos etc) não foram reconhecidos pelos seus contemporâneos, que não estavam em condições de perceber o que realmente a arte trazia de novo e criativo. O tempo se encarregou de “escolher” leitores ou apreciadores que realmente conseguiram enxergar a grandeza das obras desprezadas pelo seu tempo. Mas as analogias entre a filosofia e a grande arte, pela razão que apresentamos, param por aqui.
Normalmente, no nosso tempo, as pessoas procuram livros “objetivos”, isto é, que digam “diretamente” o que o autor pensa. Caso uma obra saia dessa suposta “objetividade”, o leitor se desinteressa pela obra e pensa aprender melhor com livros "mais objetivos" - certamente também mais superficiais. E o que queremos dizer com “um livro superficial”? É aquele em que afirmações e descrições completas de uma certa realidade não vêm acompanhadas de razões. É o tipo de livro que simplesmente propaga crenças como se fossem verdades universais e inquestionáveis. Certa vez, eu perguntei a um grupo que falava sobre espírito qual era o significado do termo “espírito”. A resposta que recebi foi que eu deveria “ler e estudar mais”, e que isso me levaria a “aprender”. Ora, no contexto de uma literatura mais culta, mais densa e de difícil compreensão, poucos conceitos são tão controversos quanto o de “espírito”. Isso vale para outros, como “vida”, “mundo”, “Deus”, “alma” e muitos outros. Os critérios atuais de "objetividade", ao menos como o conceito parece ser vulgarmente compreendido, exigem a tal "compreensão direta". Ora, quando compreendemos algo sem grandes esforços, então é porque esse esforço já foi feito por alguém e que, assim, insensivelmente, nós já supomos inquestionáveis as bases pelas quais a "visão objetiva" se tornou possível para nós. Isso quer dizer que as razões para que aceitemos certas teses e visões de mundo sempre existem, ainda que o esforço que as construiu não tenha sido nosso. O mundo jamais foi e jamais será um conjunto de dados inquestionáveis ou de fatos consumados. É a capacidade de vê-lo problemático e enigmático diante de nós que nos torna filósofos, pois é a partir daí que passamos à tentativa de explicar o mundo após longas meditações, apreensões e formulações de razões.
A razão básica da dificuldade encontrada pela maioria das pessoas nos textos de filosofia é que o filósofo não está preocupado em doutrinar o leitor. As afirmações e teses, em um texto de filosofia, sempre vêm acompanhadas de razões e de uma metodologia que o leitor precisa penetrar e cujas dificuldades precisa "vencer" para que as teses filosóficas venham à sua compreensão. Assim, o conjunto doutrinário de uma obra filosófica não é dito ao leitor sem uma cuidadosa exposição de razões pelas quais a proposta do filósofo é demonstrada. É a essa ordem de razões, que ocupa a maior parte de qualquer obra de filosofia, que o leitor incauto chama de “viagem”.
Na verdade, a expressão não está equivocada. O filósofo efetivamente “viaja” no conjunto de definições de conceitos, juízos (afirmações ou negações) e razões que os definem e, respectivamente, os justificam. Isso sempre exigiu de qualquer filósofo um esforço para tornar as suas teses demonstradas, não pura e simplesmente afirmadas. A grande vantagem dessa postura é que, após vencer as dificuldades iniciais de acompanhar a argumentação - a partir do momento em que penetra o difícil universo argumentativo do filósofo -, o leitor adquire, passo a passo, condições de dialogar com o escritor. A penetração intelectual na perspectiva argumentativa e demonstrativa do texto nos mostra que o caminho (a “viagem”) é mais importante que a tese, concordemos com ela ou não. O que realmente - ou principalmente - aprendemos após a leitura de um texto de filosofia é a pensar junto com ele e, com o tempo, a pensar por nós mesmos. Assim, o que a princípio parece difícil se torna um hábito, isto é, o habito de exigir razões para tudo o que se afirma ou nega sobre uma tese.
Os diálogos platônicos - sobretudo os da juventude - sempre nos apresentam Sócrates, ao participar de algum debate sobre um conceito (o de “justiça”, por exemplo), a perguntar algo como "o que é a justiça?” Diante de cada definição apresentada pelos interlocutores, Sócrates realiza um rigoroso exame de razões pelas quais a definição deve ser considerada aceitável ou deve ser recusada. Muitas vezes, nenhuma razão é suficiente para fundamentar a definição e o diálogo termina inconcluso. Esses são os diálogos chamados “aporéticos”. O que é uma “aporia”? É uma posição de abandonar as nossas definições ou crenças ao reconhecermos, após um cuidadoso exame racional, que realmente não sabemos aquilo que julgávamos saber com tanta segurança. Esses textos de Platão nos ensinam alguma coisa? Evidentemente que sim, mas não sobre o conceito em debate no texto - ou ao menos não diretamente. Os diálogos nos ensinam a pensar, ou seja, a nada aceitar sem antes submeter as nossas crenças a um exame racional. Martin Heidegger costumava dizer que, diante de um verdadeiro mestre, temos sempre a impressão de que nada aprendemos. A razão disso é relativamente simples: o mestre verdadeiro não nos dá ideias prontas. Ele quer que conquistemos a liberdade de procurá-las por nós mesmos. Encontrada uma razão forte que nos leve a aceitar a definição de um conceito e uma tese, ela dificilmente será abandonada. Passará a fazer parte da nossa maneira de pensar, e isso tão profundamente que, pelo próprio exercício da razão e do pensamento, adquirimos a condição de ultrapassá-la com o tempo, com a nossa caminhada sempre ávida de procurar pelas diversas perspectivas de um problema.
Daí que é correto dizer: o filósofo não “sabe”; ele pensa. Caso saiba alguma coisa, isso decorre do fato de que pensa e procura saber. Afinal, classicamente, filosofia é "amor à sabedoria". Mas aqui chegamos a uma questão fundamental: o que realmente significa “saber”? Normalmente, consideramos “sábias” as pessoas que leem muito, pois “dominam” muitos assuntos. Na verdade, essas pessoas pretensamente sábias se tornam cultas a partir da literatura a que tiveram acesso ao longo da vida. Mas elas não são sábias ou, pelo menos, caso o sejam, não o são apenas pelo fato de que "leram muito". Platão definiu a sabedoria filosófica como busca, isto é, como algo presente nas pessoas que pensam sobre o que ouvem e leem. Essa busca não coincide com a quantidade de livros que lemos ao longo da nossa caminhada, mas com a sua qualidade e com nosso modo de lê-los, e jamais devemos crer que temos diante de nós a explicação definitiva de um tema. Evidentemente, há grandes livros e, por outro lado, aqueles que lemos passa passar o tempo. O gosto pela leitura, em si mesmo, não nos faz sábios. O que nos aproxima de uma atitude sábia é a qualidade dos livros que escolhemos e, uma vez que nos acostumemos a livros de difícil compreensão, mais nos tornamos capazes de lê-los, quer dizer, mais hábeis nos tornamos em “viajar”. A expressão “viagem” traz a ideia de “caminho”. “Viajar” é “percorrer um caminho” de um ponto a outro. A longa “viagem” de um texto de filosofia, uma vez percorrida com paciência e respeito aos seus ensinamentos, jamais nos faz chegar ao outro lado da estrada exatamente como estávamos quando partimos. Algo em nós é, passo a passo, transformado, até uma transformação completa na nossa maneira de compreender leitura, cultura e erudição, além da nossa própria postura diante da vida. É esse espírito que nos faz - e esse era o propósito de Sócrates em relação aos seus discípulos! - encontrar o centro vital de onde emana o que nós somos (o nosso ser). A sabedoria começa aí. Nunca esteve nos livros, mas na existência das próprias coisas que estão diante de nós aguardando a pergunta: o que elas são?
Alguns dirão que estou a reproduzir aqui como Sócrates e Platão pensavam. De fato, eles pensavam dessa maneira, mas não por serem Sócrates e Platão. Eles assim pensavam porque eram filósofos. Não importa a linha de pensamento, a tese, a maneira de pensar ou algo do tipo: quando alguém é filósofo, então é porque buscou, durante um grande e difícil percurso, razões para pensar desse ou daquele modo. Quando um filósofo emprega um conceito, ele o define. Quando o define, apresenta razões para justificar que aquela é a melhor definição. Curiosamente, as etapas subsequentes às afirmações são mais importantes que a anterior, isto é, aquela em que simplesmente uma tese é proposta. Sem razões que a justifiquem, uma tese não passa de crença. O pensamento, nesse caso, encontra-se em estado de inércia, está em repouso, não importa o quanto estejamos dispostos a ler.
Não raras vezes, teses, faladas ou escritas, consideradas grandiosas e belas aparecem em textos que não foram escritos com rigor filosófico. Um experimentado estudioso de filosofia não se surpreende ou se deixa capturar por esses textos, pois já estudou inúmeros livros que tratam das mesmas questões. Essas falas se tornam obsoletas e desinteressantes sempre que desacompanhadas do que é preferido por um estudioso de filosofia: as razões, a caminhada, o percurso, numa palavra, a "viagem".
Ora, o que acontece com as falas e livros que abordam filosoficamente algum tema também acontece quando ouvimos um filósofo: ele sustentará uma tese apresentando razões. Uma idiossincrasia contemporânea nos leva imediatamente a pensar: “Ele está querendo me enrolar”. De fato, é exatamente o que ele pretende. Ele deseja que você se deixe enredar por razões, pela tessitura ou ordem argumentativa da sua fala, enfim, que você se envolva no “enredo” da tese. Essa atitude, longe da pretensão de nos “prender” às suas ideias, é um convite, um chamamento, à postura crítica (não definirei “pensamento crítico” neste texto), criteriosa, de pensamento. Em um dado momento - e a partir dele - você mesmo, talvez sem perceber, passará a fazer a mesma coisa. Não está aí presente - como já ouvi de muitos alunos - a intenção de “colonizar” o pensamento alheio. Uma ordem de razões, expressa com método, é, pelo contrário, toda a chance oferecida pelo filósofo para que discordemos das suas teses, das suas ideias. Quem simplesmente afirma uma tese sem oferecer razões, esse realmente deseja “colonizar” o pensamento alheio, pois um discurso feito dessa maneira não admite réplica: “Tal coisa é tal coisa e pronto”. Uma pessoa incauta se deixa capturar com facilidade por belas palavras. Sem uma educação racional severa, nós nos tornamos presas fáceis de bons “faladores” (oradores, caso se queira).
Mas é preciso retomar algo sobre o tema da “colonização” do pensamento. Nos dias atuais, nós consideramos praticamente tudo no contexto da simples “opinião”. Quantas vezes não ouvimos: - “Eu tenho a minha opinião, você tem a sua. Não há o que discutir.” Essa postura, aqui expressa em palavras, incorre em duas faltas graves. A primeira é crer que o indivíduo é uma célula isolada do conjunto, de tal modo que a opinião parece, por si só, bastar a cada um. A segunda falta decorre da primeira: nós perdemos o aspecto “comunitário” do ato de pensar, como se “pensamento” fosse algo restrito ao domínio do indivíduo, isto é, como se o que pensamos fosse única e exclusivamente nosso, inflexível a revisões e a alterações - portanto, também ao diálogo. As conquistas da civilização moderna são fantásticas, de modo que o direito de opinar sobre um assunto é dado a qualquer um. Isso não é um mal. O mal está em pensar que não podemos aprender com o outro, na dinâmica da alteridade, em que as ideias são moldadas na nossa mente por uma razão outra que daquela segundo a qual somos seres sociais. É como se elas brotassem na nossa mente e nela tivessem sido plantadas por ninguém e de lugar algum. Ora, como vivemos em sociedade, toda opinião é uma herança do meio em que vivemos, dos nossos antepassados ou contemporâneos. A opinião não nasce na nossa mente fora desse contexto. Assim, fugir da tal “colonização” é absolutamente impossível, pois as influências de grupos sociais, ou mesmo da sociedade como um todo, sempre se faz ver nas nossas maneiras de pensar. Conquistar o “nosso” - no sentido mais próprio da expressão - é algo que só conseguimos por nós mesmos e através de um longo percurso que nos conduza, lentamente, a um pensar próprio.
A filosofia, que se revela na caminhada (na “viagem”) de um filósofo, sempre deixa em nós um aprendizado sobre como fazer o nosso próprio percurso. De várias tonalidades de tinta, um pintor “tece” (compõe) uma tela. Ele apreciou vários pintores, iniciou a sua prática e assim seguiu se deixando influenciar pelos seus companheiros de ofício do presente e do passado. A excelência na arte é obtida quando o pintor consegue dar às suas telas a sua própria marca. Não é necessário argumentar muito para percebermos, ainda que de modo intuitivo, o quanto cada um de nós é único. E nós somos únicos inteiramente, desde os traços distintivos do nosso corpo até aquilo que há de mais profundo e invisível no nosso ser. Assim, sempre que conquistamos a nossa verdadeira singularidade (não aquela individualidade soberba à qual nos referimos anteriormente), nós nos tornamos capazes de fazer evoluir a atividade na qual nos empenhamos. Após me servir do exemplo da pintura, vale dizer que a filosofia nos dá a possibilidade e a abertura para percorrermos o caminho mais difícil, que é o caminho (a “viagem”) de pensamento que nos conduz à recusa ou à aceitação do que sempre nos vem de fora em estado bruto. O refinamento das nossas opiniões e de tudo quanto recebemos de fora é algo que depende de nós mesmos. Esse é o ensinamento fundamental da filosofia.
Aqui, não há como nos esquecermos das palavras de Nietzsche, que faz Zaratustra dizer aos seus discípulos:
Aqui, não há como nos esquecermos das palavras de Nietzsche, que faz Zaratustra dizer aos seus discípulos:
“Afastai-vos de mim e defendei-vos de Zaratustra! Mais ainda: envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado. Retribuímos mal a um professor, se continuamos apenas alunos. Sois os meus crentes: mas que importam todos os crentes? Ainda não havíeis procurado a vós mesmos: então me encontrastes, como fazem todos os crentes; por isso valem tão pouco todas as crenças. Agora vos digo para que me percais e vos acheis; e somente quando me tiverdes negado eu retornarei a vós.”
Encerro este pequeno texto com duas reflexões sobre a relação, no contexto da filosofia - e nada impede de que valha para outras áreas do conhecimento -, entre professor e aluno, mestre e discípulo: O verdadeiro mestre ensina a viagem enquanto ele mesmo conduz os seus discípulos até o momento em que não necessitem mais dele. Por fim, Guimarães Rosa nos diz a esse respeito: “O verdadeiro mestre não é aquele que ensina, mas aquele, de repente, aprende.” O aluno ou discípulo que consegue ir além do que diz o mestre já está no caminho da maestria.

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