Os filósofos devem ser lidos “criticamente”?
O primeiro problema dessa assertiva é a desconsideração sobre a necessidade de definir o significado de “crítica”. O segundo problema, intimamente ligado ao primeiro, é que não somos capazes de pensamento crítico em relação a um assunto que desconhecemos. Portanto, encorajar um iniciante em filosofia a estudar criticamente os filósofos é supor que ele já sabe sobre o que lerá e que, assim, já está em condições de assumir uma postura crítica diante dos textos.
Isso acontece porque muitas vezes os filósofos tratam de temas muito abordados no nosso quotidiano e, de certa maneira, estão da ordem do dia - as grandes coisas sempre estão na ordem do dia, pois são atemporais. Por outro lado, as questões existenciais - as maiores da filosofia - são, de algum modo, de interesse geral, mesmo quando julgamos ignorá-las. Quem jamais se preocupou com temas como a existência de Deus, o destino da alma após a morte ou o sentido da vida? Deístas e ateus estão aí para nos demonstrarem, todos os dias, que essas questões jamais estão fora do nosso horizonte, tanto quanto o problema de saber qual é o sentido de viver neste mundo. As religiões também nos mostram a necessidade de crer em um primeiro princípio do mundo, os livros sagrados de várias religiões nos exortam a viver, a procurar pela Divindade e a compreender, por exemplo, “que Deus tem um propósito para as nossas vidas”, de modo que não estamos neste mundo em vão: “há uma razão para viver”. Isso já é dar um sentido à nossa existência no mundo, assim como qualquer vida minimamente feliz coloca diante de si uma razão para seguir. Essas são as primeiras razões que encorajam mesmo pessoas leigas a questionar os filósofos sem sequer os haverem lido, como se as respostas a perguntas fundamentais fossem “óbvias”, sempre de acordo com as crenças particulares de cada um. O problema é que pouca coisa é óbvia neste mundo, além do fato de que raramente somos capazes de admitir a nossa pequenez diante de grandes questões existenciais. De onde vem, então, esse nefasto “criticismo” com o qual um iniciante praticamente “se arma” contra os filósofos e - o que é pior - ainda julga que essa é a atitude correta a tomar?
O primeiro ponto é que os temas mais fundamentais da filosofia são realmente comuns, e há uma razão para isso: a filosofia trata de questões fundamentais da existência humana, além de ter sido “criada” pelos antigos filósofos no tratamento direto de questões que, afinal de contas, são questões de todos nós. Isso significa que qualquer um tem uma opinião sobre alguma questão filosófica, ao menos as consideradas - e de fato elas são - mais fundamentais. De algum modo, o espírito da filosofia está em toda a humanidade, pois as suas questões tocam diretamente o universo e a existência de qualquer pessoa, a começar pelo seu íntimo, que reclama sentido para o mundo em que vive.
Assim, de algum modo, todos nós somos filósofos. Qualquer explicação sobre o sentido da existência, por mais incipiente que possa ser, brota do impulso humano primordial pela compreensão dessas questões. Sem essas explicações - ou algo que nos dê alguma resposta sobre o que fazemos no mundo -, a vida humana se torna simplesmente insuportável. Para dizer diretamente, caso chegássemos à conclusão de que esta vida não possui sentido algum, de que estamos sozinhos, entregues ao acaso e que nenhum princípio estivesse aí para nos oferecer um norte, a própria vontade de permanecer na existência seria abalada. É por essa razão que muitos filósofos trataram e tratam do tema do suicídio, a ponto do filósofo francês Albert Camus afirmar que o suicídio (decidir se a vida vale ou não a pena ser vivida) é a primeira questão verdadeiramente séria da filosofia. Enfim, a filosofia, de certo modo, trata de questões com as quais qualquer pessoa já se deparou alguma vez. Quando alguém nos diz que devemos procurar prazer e divertimento para “alegrar” a vida e que isso é o mais importante para vivermos bem, ou quando um religioso nos exorta a estudar os ensinamentos de Deus e seguir a vida prescrita por escrituras sagradas (sejam elas quais forem), tudo o que se pretende aí é dar um sentido e uma razão de ser para estarmos aqui.
O fato de a busca de um sentido para a existência ser comum a todos faz com que as discussões fundamentais da filosofia, desde que colocadas em termos claros a um estudioso iniciante, produzam do seu espírito um impulso quase irresistível de responder ao filósofo de maneira imediata, isto é, tão logo a leitura de um texto é iniciada. Immanuel Kant já alerta para esse fato de que qualquer um tem algo a dizer quando o assunto é a busca dos sentidos fundamentais da existência. Deus, o destino da alma após a morte e a criação do mundo, por exemplo, são questões para as quais praticamente todos têm uma resposta a oferecer, não importa se negativa (cética) ou afirmativa.
Ora, se, como dissemos acima, todos, de algum modo, são filósofos, é igualmente verdadeiro que, de outro modo, ninguém é filósofo em sentido estrito. Como disse certa vez o professor Gerd Bornheim, caso compreendamos a filosofia como visão de mundo, sempre houve filosofia; no entanto, se entendermos a filosofia como um esforço racional e de pensamento para fundamentar as nossas teses, então a filosofia é de origem grega. Não pretendemos entrar aqui na discussão, em voga nos nossos dias, sobre se os antigos gregos “importaram” a filosofia de regiões como a Índia ou os países africanos. Na verdade, no sentido de que façamos filosofia do modo como a cultura ocidental a acolheu e transformou em uma disciplina ligada a fundamentos, a um esforço racional de justificar e demonstrar as nossas teses - originadas ou não de crenças religiosas -, então é preciso que nos dediquemos a esse modo particular de compreender o termo “filosofia”, tenha ela surgido na Grécia ou em qualquer outra parte do mundo. As visões de mundo sempre apareceram nos filósofos ao longo dos tempos, mas sempre dentro de um esforço de fundamentação que não encontramos em qualquer tese proferida por quem não se dedicou à filosofia no seu sentido estrito de investigação racional sobre princípios e fundamentos.
O sentido geral de filosofia como “visão de mundo” autoriza qualquer um a emitir juízos sobre a existência; o sentido estrito exige dedicação ao que disseram os filósofos ao longo dos séculos em que a filosofia ocidental se desenvolveu, tenha tido ela a origem que se quiser (aqui, isso é o que menos importa). O fato é que muito do que fazemos, dizemos e pensamos hoje procede de teses filosóficas já esquecidas como tais, como nos adverte o professor Emmanuel Carneiro Leão. O que “eu” penso sobre questões existenciais não influenciou gerações. Pelo contrário, cada esforço do indivíduo moderno para ser abrangente já está repleto de velhas teses filosóficas esquecidas como tais. Aí já estaria uma razão para nos dispormos a “revisitar” as origens do nosso pensamento e da própria visão de mundo da humanidade moderna. Nem sempre o que pensamos é verdadeiramente nosso, e isso tem um sentido especial e decisivo: um pensamento é nosso quando percorremos um caminho em que o seu sentido seja acolhido pelo nosso espírito mediante um percurso próprio de indagação. Como dificilmente aprendemos a realizar sozinhos esse esforço, precisamos dialogar com a tradição e com o que nos legaram os pensadores que nos precederam. Caso suponhamos possuir a capacidade de pensar sem o apoio da tradição na qual estamos inseridos, corremos o sério risco de simplesmente repetir, nutridos da crença de que inventamos algo novo, o que já foi dito (para nos servirmos de uma expressão popular, o risco de “reinventarmos a roda” é imenso). No mais, como a filosofia (em sentido estrito) possui uma história e um certo modo comum de proceder, ela se configurou como uma disciplina do conhecimento e, como tal, exige que a ela nos dediquemos antes de emitir juízos precoces.
O fato de a filosofia ser, no seu sentido estrito, uma disciplina específica do conhecimento e do pensamento - e que, assim, exige estudo e dedicação - já seria suficiente para nos convencer de que é preciso precaução antes de julgar precocemente os escritos filosóficos.
No entanto, há uma segunda razão muito mais forte para que não julgarmos um filósofo antes do tempo. Questões como o sentido da existência, Deus, alma, mundo, vida e morte são questões grandiosas. Sempre somos pequenos diante do alcance desses problemas, além do fato de que eles ocuparam mentes grandiosas que nos antecederam, pessoas que dedicaram à sua discussão as suas vidas inteiras. A humanidade moderna foi tomada de um tamanho espírito de superficialidade diante da existência que nenhum grande caminho é considerado possível. Migramos das grandes buscas para questões da ordem do dia. Confiamos as coisas mais importantes da vida ao movediço terreno das opiniões, que parecem poder dar conta de tudo. O nosso tempo é tomado de um relativismo de opiniões que sequer dá conta de si mesmo. A humanidade - cada um de nós - se apequenou diante da grandeza da existência, e o mais grave dessa atitude é a presunção do contrário: de que nos “libertamos” e nos tornamos maiores do que as nossas origens, maiores do que a tradição inteira que nos trouxe até o lugar em que nos encontramos. Numa palavra, nos pensamos grandes precisamente quando jamais na história humana fomos tão pequenos. Essa é uma das razões - talvez a principal - de observarmos diante de nós a destruição da grande cultura, das artes, das religiões, da grande literatura e assim por diante. A filosofia padece do mesmo movimento destruidor da cultura pela hipertrofia do indivíduo, como se nada comum já pudesse mais se impor aos pareceres individuais sobre o mundo.
Quando, porém, falamos em “apequenamento” da cultura, o que realmente está em jogo é o apequenamento do espírito, considerando aqui o termo “espírito” como aquilo que nos constitui invisivelmente, assim como as nossas faculdades internas e o próprio princípio fundador da ideia de “cultivo”, isto é, de “cultura”. Aquilo de que cuidamos e cultivamos e que, assim, se projeta para a posteridade, é o espírito. Toda cultura humana nasce de um espírito (considerado aqui no seu sentido mais amplo) fundante, de uma motivação criadora que nos fez e nos poderia fazer suplantar as dificuldades da existência até a excelência das grandes expressões culturais da civilização. Tudo isso deu lugar a um alheamento da grandeza da existência, em cujo lugar colocamos um “eu” vazio de conteúdo. É nessa perspectiva que nos tornamos destruidores incapazes de enxergar além de nós mesmos. Uma miséria e indigência espiritual nos faz crer desnecessário qualquer auto-cultivo, qualquer dedicação mais cuidadosa ao nosso crescimento e ao crescimento da cultura, que nos daria uma perspectiva para além do domínio puro e simples do “valor individual”. A primeira consequência disso é a incapacidade de projetarmos os nossos anseios para além do mesmo dia. Outra consequência, bem mais nefasta, é o crescimento de ideologias de todos os tipos, que pretendem substituir a cultura do espírito pelo desejo de transformação da cultura precedente. Ora, diante do nosso vazio existencial, tal desejo nada tem a oferecer que substitua o objeto das nossas críticas à cultura e a todo o legado civilizatório que recebemos e do qual somos herdeiros. A partir do vazio em que nos encontramos, a ideologia aparece como um falso redentor, uma falsa fonte de pensamento crítico. Padrões ideológicos nos pretendem preencher o vazio existencial por fórmulas prontas pelas quais supomos pode enquadrar todas as outras coisas. O vazio existencial nos pertence como algo a ser vencido rumo ao encontro de um sentido para existir, algo que exige um gigantesco esforço individual e/ou coletivo. É assim que, na ilusão de um criticismo sem propósitos, nos arrogamos do direito de reduzir tudo à nossa medida e à medida da ideologia que nutrimos, entre as quais está a própria ideologia de um indivíduo super-dotado, uma caricatura, uma hipertrofia do vazio. Um descuido no olhar, essa hipertrofia parece ter espírito.
Ora, é esse “eu” vazio e que, não obstante, crê tudo saber - o que não é difícil, pois que reduziu o seu horizonte à ilusão de uma existência isolada do mundo -, que, finalmente, deseja confrontar todas as grandes coisas a ponto de reduzi-las à sua medida. Já no século VI a.C., Heráclito de Éfeso nos advertia quanto ao perigo de não conseguirmos mais enxergar um cosmos superior à nossa “inteligência particular”. Uma sentença do filósofo que chegou até nós diz que “para os homens despertos, um único mundo é comum, mas os que estão à margem e ao leito se reviram para o seu próprio mundo”. Numa outra frase, ele conclui que essas pessoas “vivem como se tivessem uma inteligência particular”. A advertência de Heráclito é para uma perspectiva de mundo (de cosmos) que nos ultrapassa. Assim como ele, todos os filósofos nos chamaram e chamam atenção para a apreensão de razões que ultrapassam esse conjunto indefinido de “coisas e entendimentos individuais”. Evidentemente, a ideia de indivíduo e de direitos individuais representam conquistas da civilização moderna, mas é a hipertrofia de um indivíduo que sequer sabe de si que finalmente faz morrer a civilização. No fundo, a ideia genuína de indivíduo se perde na perspectiva da massa (da ideologia, que só pode ser de massa). Cada um, na crença de ser um “pequeno gênio”, nada mais faz além de reproduzir uma ideologia de massa que finge valorizar o indivíduo para, finalmente, colocá-lo a serviço dos seus propósitos.
É precisamente o medo de perder-se da matriz ideológica, que nutre as suas ilusões de grandeza, que leva o indivíduo a recusar-se ao aprendizado dos grandes pensadores. Para o indivíduo hipertrofiado, ele e o mundo já são desde sempre coisas prontas, o olhar que os reproduz é absoluto, as sentenças e frases prontas exprimem fatos consumados. Ora, um indivíduo nessas condições (na verdade, todos nós, contemporâneos) se aproxima de qualquer coisa já com a pretensão de que sabe o que tem diante de si. Não se estuda mais para aprender, mas para reafirmar o que já se julga saber. O “pensar crítico”, no nosso tempo, nada mais possui do rico conceito grego de krínein, “discernir”, “escolher”, “julgar” por si mesmo.
O conceito de indivíduo - de uma singularidade - apenas pode brotar de um longo trabalho e cultivo pessoal em comunicação com a cultura e com as grandes conquistas dos nossos antepassados. A loucura moderna acredita ser capaz de “produzir” (dentro de uma perspectiva consumista de “produção de coisas) singularidades sem a necessidade de se percorra nenhum caminho de auto-conquista. Com espécies de “cursos práticos de pensamento crítico”, passamos a nos acreditar suficientemente grandes para julgar um grande trabalho de filosofia antes mesmo de haver percorrido qualquer caminho. A crítica precoce de um texto de filosofia procede daí. Se pensamos o mundo de maneira uniforme, não há razão para nos dispormos ao verdadeiramente novo. Como haveria de vir a ser o novo em um mundo uniforme?
De tudo o que dissemos, o que se segue é que a maneira de estudar filósofos é a de entrega a uma nova possibilidade de pensamento. Para isso, é necessário permitir, pacientemente, que o filósofo fale até o fim. Não nos perderemos de nós mesmos com essa atitude. Pelo contrário, é a entrega a essa nova atitude que nos libertará, quando nos tornarmos pouco a pouco capazes de transcender o filósofo e, enfim, a nós mesmos. Não sintamos medo ou vergonha se, a princípio, não compreendemos o que o filósofo quer dizer. Caso a leitura passe a fazer sentido, não sintamos vergonha ou medo de concordar com o filósofo, mesmo que seja, a princípio, com tudo o que ele diz. O tempo nos diferenciará, pois, como já dissemos nesta série de textos, há algo absoluta e irrevogavelmente nosso para nos deixarmos permanecer nas mesmas ideias. Evidentemente, a mudança de atitude em relação ao “criticismo de massa” já deve ter ocorrido antes, caso contrário sequer conseguiremos abandonar as nossas crenças para nos deixarmos conduzir pelo filósofo. A conquista da filosofia virá com o tempo, quando adquirirmos a capacidade de julgar por nós mesmos. Todos os filósofos que se destacaram na história da humanidade fizeram isso, todos se deixaram influenciar por outros até conquistarem a sua própria maneira de enxergar o mundo. Por isso eles se tornaram o que são até hoje; por isso boa parte das suas obras sobreviveram a séculos e a milênios após a sua morte. A grande singularidade é construída com esforço, dedicação e tempo. Não nascemos prontos. O indivíduo que não se fez a partir de uma longa caminhada é uma ilusão.
A humanidade contemporânea se julga grande demais para ser grande. A verdadeira singularidade é pequena demais para ser pequena. Leiamos os filósofos - e, em geral, apreciemos as grandes coisas - com o espírito pequeno. Só quem é e entende a si mesmo como pequeno pode vir a ser grande. (Texto de Márcio Petrocelli Paixão)
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Immanuel Kant (1724-1804). Filósofo germânico fundador do racionalismo crítico ou criticismo.
O primeiro problema dessa assertiva é a desconsideração sobre a necessidade de definir o significado de “crítica”. O segundo problema, intimamente ligado ao primeiro, é que não somos capazes de pensamento crítico em relação a um assunto que desconhecemos. Portanto, encorajar um iniciante em filosofia a estudar criticamente os filósofos é supor que ele já sabe sobre o que lerá e que, assim, já está em condições de assumir uma postura crítica diante dos textos.
Isso acontece porque muitas vezes os filósofos tratam de temas muito abordados no nosso quotidiano e, de certa maneira, estão da ordem do dia - as grandes coisas sempre estão na ordem do dia, pois são atemporais. Por outro lado, as questões existenciais - as maiores da filosofia - são, de algum modo, de interesse geral, mesmo quando julgamos ignorá-las. Quem jamais se preocupou com temas como a existência de Deus, o destino da alma após a morte ou o sentido da vida? Deístas e ateus estão aí para nos demonstrarem, todos os dias, que essas questões jamais estão fora do nosso horizonte, tanto quanto o problema de saber qual é o sentido de viver neste mundo. As religiões também nos mostram a necessidade de crer em um primeiro princípio do mundo, os livros sagrados de várias religiões nos exortam a viver, a procurar pela Divindade e a compreender, por exemplo, “que Deus tem um propósito para as nossas vidas”, de modo que não estamos neste mundo em vão: “há uma razão para viver”. Isso já é dar um sentido à nossa existência no mundo, assim como qualquer vida minimamente feliz coloca diante de si uma razão para seguir. Essas são as primeiras razões que encorajam mesmo pessoas leigas a questionar os filósofos sem sequer os haverem lido, como se as respostas a perguntas fundamentais fossem “óbvias”, sempre de acordo com as crenças particulares de cada um. O problema é que pouca coisa é óbvia neste mundo, além do fato de que raramente somos capazes de admitir a nossa pequenez diante de grandes questões existenciais. De onde vem, então, esse nefasto “criticismo” com o qual um iniciante praticamente “se arma” contra os filósofos e - o que é pior - ainda julga que essa é a atitude correta a tomar?
O primeiro ponto é que os temas mais fundamentais da filosofia são realmente comuns, e há uma razão para isso: a filosofia trata de questões fundamentais da existência humana, além de ter sido “criada” pelos antigos filósofos no tratamento direto de questões que, afinal de contas, são questões de todos nós. Isso significa que qualquer um tem uma opinião sobre alguma questão filosófica, ao menos as consideradas - e de fato elas são - mais fundamentais. De algum modo, o espírito da filosofia está em toda a humanidade, pois as suas questões tocam diretamente o universo e a existência de qualquer pessoa, a começar pelo seu íntimo, que reclama sentido para o mundo em que vive.
Assim, de algum modo, todos nós somos filósofos. Qualquer explicação sobre o sentido da existência, por mais incipiente que possa ser, brota do impulso humano primordial pela compreensão dessas questões. Sem essas explicações - ou algo que nos dê alguma resposta sobre o que fazemos no mundo -, a vida humana se torna simplesmente insuportável. Para dizer diretamente, caso chegássemos à conclusão de que esta vida não possui sentido algum, de que estamos sozinhos, entregues ao acaso e que nenhum princípio estivesse aí para nos oferecer um norte, a própria vontade de permanecer na existência seria abalada. É por essa razão que muitos filósofos trataram e tratam do tema do suicídio, a ponto do filósofo francês Albert Camus afirmar que o suicídio (decidir se a vida vale ou não a pena ser vivida) é a primeira questão verdadeiramente séria da filosofia. Enfim, a filosofia, de certo modo, trata de questões com as quais qualquer pessoa já se deparou alguma vez. Quando alguém nos diz que devemos procurar prazer e divertimento para “alegrar” a vida e que isso é o mais importante para vivermos bem, ou quando um religioso nos exorta a estudar os ensinamentos de Deus e seguir a vida prescrita por escrituras sagradas (sejam elas quais forem), tudo o que se pretende aí é dar um sentido e uma razão de ser para estarmos aqui.
O fato de a busca de um sentido para a existência ser comum a todos faz com que as discussões fundamentais da filosofia, desde que colocadas em termos claros a um estudioso iniciante, produzam do seu espírito um impulso quase irresistível de responder ao filósofo de maneira imediata, isto é, tão logo a leitura de um texto é iniciada. Immanuel Kant já alerta para esse fato de que qualquer um tem algo a dizer quando o assunto é a busca dos sentidos fundamentais da existência. Deus, o destino da alma após a morte e a criação do mundo, por exemplo, são questões para as quais praticamente todos têm uma resposta a oferecer, não importa se negativa (cética) ou afirmativa.
Ora, se, como dissemos acima, todos, de algum modo, são filósofos, é igualmente verdadeiro que, de outro modo, ninguém é filósofo em sentido estrito. Como disse certa vez o professor Gerd Bornheim, caso compreendamos a filosofia como visão de mundo, sempre houve filosofia; no entanto, se entendermos a filosofia como um esforço racional e de pensamento para fundamentar as nossas teses, então a filosofia é de origem grega. Não pretendemos entrar aqui na discussão, em voga nos nossos dias, sobre se os antigos gregos “importaram” a filosofia de regiões como a Índia ou os países africanos. Na verdade, no sentido de que façamos filosofia do modo como a cultura ocidental a acolheu e transformou em uma disciplina ligada a fundamentos, a um esforço racional de justificar e demonstrar as nossas teses - originadas ou não de crenças religiosas -, então é preciso que nos dediquemos a esse modo particular de compreender o termo “filosofia”, tenha ela surgido na Grécia ou em qualquer outra parte do mundo. As visões de mundo sempre apareceram nos filósofos ao longo dos tempos, mas sempre dentro de um esforço de fundamentação que não encontramos em qualquer tese proferida por quem não se dedicou à filosofia no seu sentido estrito de investigação racional sobre princípios e fundamentos.
O sentido geral de filosofia como “visão de mundo” autoriza qualquer um a emitir juízos sobre a existência; o sentido estrito exige dedicação ao que disseram os filósofos ao longo dos séculos em que a filosofia ocidental se desenvolveu, tenha tido ela a origem que se quiser (aqui, isso é o que menos importa). O fato é que muito do que fazemos, dizemos e pensamos hoje procede de teses filosóficas já esquecidas como tais, como nos adverte o professor Emmanuel Carneiro Leão. O que “eu” penso sobre questões existenciais não influenciou gerações. Pelo contrário, cada esforço do indivíduo moderno para ser abrangente já está repleto de velhas teses filosóficas esquecidas como tais. Aí já estaria uma razão para nos dispormos a “revisitar” as origens do nosso pensamento e da própria visão de mundo da humanidade moderna. Nem sempre o que pensamos é verdadeiramente nosso, e isso tem um sentido especial e decisivo: um pensamento é nosso quando percorremos um caminho em que o seu sentido seja acolhido pelo nosso espírito mediante um percurso próprio de indagação. Como dificilmente aprendemos a realizar sozinhos esse esforço, precisamos dialogar com a tradição e com o que nos legaram os pensadores que nos precederam. Caso suponhamos possuir a capacidade de pensar sem o apoio da tradição na qual estamos inseridos, corremos o sério risco de simplesmente repetir, nutridos da crença de que inventamos algo novo, o que já foi dito (para nos servirmos de uma expressão popular, o risco de “reinventarmos a roda” é imenso). No mais, como a filosofia (em sentido estrito) possui uma história e um certo modo comum de proceder, ela se configurou como uma disciplina do conhecimento e, como tal, exige que a ela nos dediquemos antes de emitir juízos precoces.
O fato de a filosofia ser, no seu sentido estrito, uma disciplina específica do conhecimento e do pensamento - e que, assim, exige estudo e dedicação - já seria suficiente para nos convencer de que é preciso precaução antes de julgar precocemente os escritos filosóficos.
No entanto, há uma segunda razão muito mais forte para que não julgarmos um filósofo antes do tempo. Questões como o sentido da existência, Deus, alma, mundo, vida e morte são questões grandiosas. Sempre somos pequenos diante do alcance desses problemas, além do fato de que eles ocuparam mentes grandiosas que nos antecederam, pessoas que dedicaram à sua discussão as suas vidas inteiras. A humanidade moderna foi tomada de um tamanho espírito de superficialidade diante da existência que nenhum grande caminho é considerado possível. Migramos das grandes buscas para questões da ordem do dia. Confiamos as coisas mais importantes da vida ao movediço terreno das opiniões, que parecem poder dar conta de tudo. O nosso tempo é tomado de um relativismo de opiniões que sequer dá conta de si mesmo. A humanidade - cada um de nós - se apequenou diante da grandeza da existência, e o mais grave dessa atitude é a presunção do contrário: de que nos “libertamos” e nos tornamos maiores do que as nossas origens, maiores do que a tradição inteira que nos trouxe até o lugar em que nos encontramos. Numa palavra, nos pensamos grandes precisamente quando jamais na história humana fomos tão pequenos. Essa é uma das razões - talvez a principal - de observarmos diante de nós a destruição da grande cultura, das artes, das religiões, da grande literatura e assim por diante. A filosofia padece do mesmo movimento destruidor da cultura pela hipertrofia do indivíduo, como se nada comum já pudesse mais se impor aos pareceres individuais sobre o mundo.
Quando, porém, falamos em “apequenamento” da cultura, o que realmente está em jogo é o apequenamento do espírito, considerando aqui o termo “espírito” como aquilo que nos constitui invisivelmente, assim como as nossas faculdades internas e o próprio princípio fundador da ideia de “cultivo”, isto é, de “cultura”. Aquilo de que cuidamos e cultivamos e que, assim, se projeta para a posteridade, é o espírito. Toda cultura humana nasce de um espírito (considerado aqui no seu sentido mais amplo) fundante, de uma motivação criadora que nos fez e nos poderia fazer suplantar as dificuldades da existência até a excelência das grandes expressões culturais da civilização. Tudo isso deu lugar a um alheamento da grandeza da existência, em cujo lugar colocamos um “eu” vazio de conteúdo. É nessa perspectiva que nos tornamos destruidores incapazes de enxergar além de nós mesmos. Uma miséria e indigência espiritual nos faz crer desnecessário qualquer auto-cultivo, qualquer dedicação mais cuidadosa ao nosso crescimento e ao crescimento da cultura, que nos daria uma perspectiva para além do domínio puro e simples do “valor individual”. A primeira consequência disso é a incapacidade de projetarmos os nossos anseios para além do mesmo dia. Outra consequência, bem mais nefasta, é o crescimento de ideologias de todos os tipos, que pretendem substituir a cultura do espírito pelo desejo de transformação da cultura precedente. Ora, diante do nosso vazio existencial, tal desejo nada tem a oferecer que substitua o objeto das nossas críticas à cultura e a todo o legado civilizatório que recebemos e do qual somos herdeiros. A partir do vazio em que nos encontramos, a ideologia aparece como um falso redentor, uma falsa fonte de pensamento crítico. Padrões ideológicos nos pretendem preencher o vazio existencial por fórmulas prontas pelas quais supomos pode enquadrar todas as outras coisas. O vazio existencial nos pertence como algo a ser vencido rumo ao encontro de um sentido para existir, algo que exige um gigantesco esforço individual e/ou coletivo. É assim que, na ilusão de um criticismo sem propósitos, nos arrogamos do direito de reduzir tudo à nossa medida e à medida da ideologia que nutrimos, entre as quais está a própria ideologia de um indivíduo super-dotado, uma caricatura, uma hipertrofia do vazio. Um descuido no olhar, essa hipertrofia parece ter espírito.
Ora, é esse “eu” vazio e que, não obstante, crê tudo saber - o que não é difícil, pois que reduziu o seu horizonte à ilusão de uma existência isolada do mundo -, que, finalmente, deseja confrontar todas as grandes coisas a ponto de reduzi-las à sua medida. Já no século VI a.C., Heráclito de Éfeso nos advertia quanto ao perigo de não conseguirmos mais enxergar um cosmos superior à nossa “inteligência particular”. Uma sentença do filósofo que chegou até nós diz que “para os homens despertos, um único mundo é comum, mas os que estão à margem e ao leito se reviram para o seu próprio mundo”. Numa outra frase, ele conclui que essas pessoas “vivem como se tivessem uma inteligência particular”. A advertência de Heráclito é para uma perspectiva de mundo (de cosmos) que nos ultrapassa. Assim como ele, todos os filósofos nos chamaram e chamam atenção para a apreensão de razões que ultrapassam esse conjunto indefinido de “coisas e entendimentos individuais”. Evidentemente, a ideia de indivíduo e de direitos individuais representam conquistas da civilização moderna, mas é a hipertrofia de um indivíduo que sequer sabe de si que finalmente faz morrer a civilização. No fundo, a ideia genuína de indivíduo se perde na perspectiva da massa (da ideologia, que só pode ser de massa). Cada um, na crença de ser um “pequeno gênio”, nada mais faz além de reproduzir uma ideologia de massa que finge valorizar o indivíduo para, finalmente, colocá-lo a serviço dos seus propósitos.
É precisamente o medo de perder-se da matriz ideológica, que nutre as suas ilusões de grandeza, que leva o indivíduo a recusar-se ao aprendizado dos grandes pensadores. Para o indivíduo hipertrofiado, ele e o mundo já são desde sempre coisas prontas, o olhar que os reproduz é absoluto, as sentenças e frases prontas exprimem fatos consumados. Ora, um indivíduo nessas condições (na verdade, todos nós, contemporâneos) se aproxima de qualquer coisa já com a pretensão de que sabe o que tem diante de si. Não se estuda mais para aprender, mas para reafirmar o que já se julga saber. O “pensar crítico”, no nosso tempo, nada mais possui do rico conceito grego de krínein, “discernir”, “escolher”, “julgar” por si mesmo.
O conceito de indivíduo - de uma singularidade - apenas pode brotar de um longo trabalho e cultivo pessoal em comunicação com a cultura e com as grandes conquistas dos nossos antepassados. A loucura moderna acredita ser capaz de “produzir” (dentro de uma perspectiva consumista de “produção de coisas) singularidades sem a necessidade de se percorra nenhum caminho de auto-conquista. Com espécies de “cursos práticos de pensamento crítico”, passamos a nos acreditar suficientemente grandes para julgar um grande trabalho de filosofia antes mesmo de haver percorrido qualquer caminho. A crítica precoce de um texto de filosofia procede daí. Se pensamos o mundo de maneira uniforme, não há razão para nos dispormos ao verdadeiramente novo. Como haveria de vir a ser o novo em um mundo uniforme?
De tudo o que dissemos, o que se segue é que a maneira de estudar filósofos é a de entrega a uma nova possibilidade de pensamento. Para isso, é necessário permitir, pacientemente, que o filósofo fale até o fim. Não nos perderemos de nós mesmos com essa atitude. Pelo contrário, é a entrega a essa nova atitude que nos libertará, quando nos tornarmos pouco a pouco capazes de transcender o filósofo e, enfim, a nós mesmos. Não sintamos medo ou vergonha se, a princípio, não compreendemos o que o filósofo quer dizer. Caso a leitura passe a fazer sentido, não sintamos vergonha ou medo de concordar com o filósofo, mesmo que seja, a princípio, com tudo o que ele diz. O tempo nos diferenciará, pois, como já dissemos nesta série de textos, há algo absoluta e irrevogavelmente nosso para nos deixarmos permanecer nas mesmas ideias. Evidentemente, a mudança de atitude em relação ao “criticismo de massa” já deve ter ocorrido antes, caso contrário sequer conseguiremos abandonar as nossas crenças para nos deixarmos conduzir pelo filósofo. A conquista da filosofia virá com o tempo, quando adquirirmos a capacidade de julgar por nós mesmos. Todos os filósofos que se destacaram na história da humanidade fizeram isso, todos se deixaram influenciar por outros até conquistarem a sua própria maneira de enxergar o mundo. Por isso eles se tornaram o que são até hoje; por isso boa parte das suas obras sobreviveram a séculos e a milênios após a sua morte. A grande singularidade é construída com esforço, dedicação e tempo. Não nascemos prontos. O indivíduo que não se fez a partir de uma longa caminhada é uma ilusão.
A humanidade contemporânea se julga grande demais para ser grande. A verdadeira singularidade é pequena demais para ser pequena. Leiamos os filósofos - e, em geral, apreciemos as grandes coisas - com o espírito pequeno. Só quem é e entende a si mesmo como pequeno pode vir a ser grande. (Texto de Márcio Petrocelli Paixão)
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Immanuel Kant (1724-1804). Filósofo germânico fundador do racionalismo crítico ou criticismo.
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