Estátua de Níke Semotrácia. Algo da obra, das suas histórias e lendas.
A estátua Níke Semotrácia se encontra no Museu do Louvre, em Paris, e é hoje considerada uma das mais importantes expressões artísticas do período helenístico, isto é, do pan-helenismo promovido por Alexandre (O Grande), que expandiu a cultura helênica para além das fronteiras das velhas Cidades-Estado dos séculos anteriores. A historiografia registra esse período como “pós-alexandrino”, pois é a partir do ano da morte de Alexandre que se lhe assinala o início, embora isso não teria sido possível sem as campanhas de Alexandre, que estendeu os seus domínios da Pérsia à Índia, para apenas considerar a façanha do filho de Felipe da Macedônia em domínios orientais. Alexandre expandiu o Império Macedônico entre 356 e 323 a.C.
Historiadores denominam “período helenístico” uma era que começa precisamente no ano a morte de Alexandre até 30a.C, uma espécie de “período de transição” entre o Império Alexandrino e o Império Romano. Mas a discussão desse ponto é assunto para outra ocasião.
Em relação à Níke Semotrácia, a sua importância enquanto monumento ocidental, com muita probabilidade, é proporcional à grandeza atribuída ao helenismo disseminado por Alexandre pelos quatro cantos do mundo por ele conhecido. A raiz da helenização promovida por Alexandre foi, como ele próprio sempre reconheceu, a grandeza da civilização helênica que o precedeu em cerca de cinco séculos, digamos, de Homero a Aristóteles, a quem Felipe confiou a educação do seu sucessor.
A obra se encontra no Louvre por ter sido descoberta pelo arqueólogo amador francês Charles Champoiseau que, em 1863, numa das suas expedições à Ilha de Samotrácia (hoje território turco), a encontra fragmentada em cento e dezoito partes. Champoiseau era então Cônsul francês na Turquia e se dedicava à arqueologia de forma amadora. Essas partes foram montadas criteriosamente no Louvre e, assim, a estátua reconstituída pertence ao Musée du Louvre. A versão original da obra, assim encontrada e reconstituída, data aproximadamente de 190 a.C. As suas medidas impressionam os visitantes do Louvre logo à primeira vista e à medida que se aproximam, até que percebam uma majestosa obra de 3,28 m de altura. A técnica da escultura do período envolve o trabalho sobre seis grandes blocos de mármore branco. A finalidade evidente dessa técnica é a produção de obras imortais, seja pelas dimensões e pela qualidade (durabilidade) do material empregado, quanto pelos mitos representados na obra, isto é, pela força da cultura e do espírito implícitos no monumento - o que já seria, para um observador não leigo, uma experiência estética à parte, não obstante o fato de que a obra fala muito também por si mesma. Algo forte e marcante está diante de nós, um gigantesco tesouro civilizatório está guardado pela beleza imediatamente “perceptível” na obra. Isso nos leva, particularmente, ao mito de Νίκη (Nice, na forma portuguesa; Níke, na transliteração do grego; Vitória, na tradução portuguesa; Victoria, na tradução latina).
Quem é Νίκη? Pálas (Πάλλας, transliteração Pállas), sua mãe, é da segunda geração de titãs, deuses que antecedem na mitologia grega a era dos Olímpicos e da tríade Zeus, Hades e Poseidon, responsáveis, segundo uma versão que Homero nos dá na Ilíada, pela formação de um kósmos (ordem, mundo organizado). Palas (como escrevemos em português - não confundir com a homônima "Palas", epíteto da deusa Atena) uniu-se a Estige, primogênita de Oceano. Seus filhos são Zêlos (Zelo), Nike, Kratos (Poder) e Bia (Força). Os estudiosos dos mitos gregos nos apontam para o fato de que uma estátua de Níke foi colocada à frente da proa de uma nau (nome dado às embarcações da época), certamente para um culto a Níke pela vitória de Rhodes sobre Antiochus III (222-187a.C.). De modo geral, Níke era a protetora dos exércitos e aquela que proporcionava aos heróis a vitória nas batalhas, que haveria de chegar com a presença da divindade ao seu lado.
Em relação aos três irmãos Krátos, Bía e Zêlos, a vitória nas batalhas é obtida pela força e pelo poder (Bía e Krátos). Em seguida, Zêlos (Ζηλος) seria o guardião dos vitoriosos contra o zêlo e contra a inveja, pois esse é o significado dessa divindade e do próprio termo grego "ζῆλος" (zêlos). Evidentemente, há muito mito nas entrelinhas deste texto. Deixaremos isso para outra ocasião.
A magnífica estátua está na escadaria do Louvre que leva às obras da renascença. A forte impressão e experiência estética de quem sobe a escadaria aumenta a cada passo, até a visão indizível da estátua de mais de três metros. O fato de não haver sido encontrada a cabeça de Nike em nada diminui a grandeza do monumento, e há quem diga, entre estudiosos e simples observadores, que esse "detalhe ausente" apenas aumenta a sensação de mistério que envolve a obra.
(O que acharam da análise dessa bela escultura?
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Texto de Márcio Petrocelli Paixão


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